Opinião
20 outubro 2021

Não há Planeta B, mas Plano C

Tempo de leitura: 6 min
Talvez seja o momento de pensar no Plano C, que me parece, curiosamente, ligado ao percurso que a Igreja Católica está a fazer com este sínodo dos bispos, isto é, um percurso sinodal que contém os Cs desse plano: Comunicação, Concretização, e Comunhão.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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A rainha de Inglaterra está “irritada” com a falta de acção dos governantes das nações. E o seu neto, o príncipe William, critica as iniciativas turísticas de Jeff Bezos e Elon Musk dedicadas ao turismo espacial quando temos de consertar o planeta quebrado no clima pela acção humana. Elon Musk tem diversas outras iniciativas em prol do meio ambiente, pelo que a crítica que lhe é feita pode atenuar-se, mas a ideia de que nós “temos de consertar” um planeta quebrado desvia o olhar do que está, realmente, quebrado: a vontade humana de mudar o seu estilo de vida

Em muitos cartazes de manifestações por todo o mundo a apelar à acção lê-se a – «Não há Planeta B». Esta frase-chave soa bem ao ouvido, mas se reflectirmos sobre ela notamos um modus operandi tipicamente humano de querer controlar e organizar tudo o que faz no formato de planos. Esse estilo de vida de que podemos consertar o que está quebrado tem valor. Pois, na mentalidade consumista, quando algo se estraga compra-se um novo, mas esse estilo de vida é incompatível com a realidade planetária. Por outro lado, a analogia entre os planos A, B, C, ... com o Planeta B como alternativo ao planeta A (que já estragámos) carece de realismo. Pois, o Planeta A continuará. Nós é que podemos não continuar cá porque nos extinguimos com a reacção do planeta às nossas acções. 

Os planos aplicam-se aos nossos estilos de vida. E penso que já esgotámos o plano A – informar para consciencializar (não resultou) –, o plano B – promover o diálogo para a acção das nações, os COP (não resultou), logo, talvez seja o momento de pensar no Plano C, que me parece, curiosamente, ligado ao percurso que a Igreja Católica está a fazer com este sínodo dos bispos, isto é, um percurso sinodal que contém os Cs desse plano: Comunicação, Concretização, e Comunhão. 

A comunicação parece-me ser, cada vez que penso nisso, a metáfora mais próxima daquilo que é a evolução dos ecossistemas universais. Isto é, comunicação a todos os níveis de interpretação e percepção da realidade. Todos conseguimos compreender como a energia seja uma quantidade fundamental para gerar dinâmica nos sistemas, mas a informação associada às razões do fluir dessa energia corresponde a uma quantidade, talvez, ainda mais fundamental. E qualquer comunicação assenta nos fluxos de informação partilhados entre as diversas partes. Acentuei a palavra relacionada com partilha por expressar como são essenciais os canais de comunicação que criamos para a realizar. Olhando para o nosso mundo que vive imerso num oceano de informação, muitas vezes são os canais que falham e, sem comunicar, dificilmente sabemos os passos a dar e qual a direcção certa. E quando esses passos estiverem definidos temos de os concretizar.

A concretização é o que incomoda alguns dos nossos líderes como a rainha Elizabeth II de Inglaterra e o Papa Francisco, bem como incomoda cada pessoa sensível ao efeito que os nossos estilos de vida têm sobre os ecossistemas terrestres. Mas se queremos tomar uma decisão em relação a aspectos concretos que podem mudar o nosso estilo de vida, obter informação é insuficiente. Em muitos casos, quanto mais informação tivermos, mais seguros ficamos em relação a uma escolha, mas demasiada informação pode bloquear-nos. A concretização de alguma coisa, ainda que imperfeita, dá-nos experiência e, com essa, a informação que podemos partilhar sobre uma mudança de estilo de vida que pode inspirar outros a mudar. Mas o propósito terá de ser mais profundo, isto é, deveria levar-nos a amadurecer na comunhão.

A comunhão é o traço mais profundo que nos une a tudo na criação. Os processos energéticos produzem efeito quando interagem, relacionam-se e isso é comunhão. Se entendermos a comunhão como mútua íntima imanência percebemos melhor como o nosso agir não está desligado de tudo o que flui à nossa volta. 

Uma teóloga italiana fez-me uma vez um comentário em relação ao uso que fazia da palavra comunhão como chave de leitura de um novo pensamento ecológico, restringindo-a à comunhão sacramental. Na altura disse-lhe que talvez o problema não fosse o uso que fazia da palavra, mas dos teólogos que restringiam o seu potencial experiencial. 

Com a poeira levantada pela possibilidade de uma Igreja sinodal, há que reconhecer que se existe pó, deve-se à falta de aprofundamento da comunicação que nos une, da concretização que partilhamos em testemunho, como sinal da comunhão que nos transforma. Não estamos no tempo de deixar assentar poeira. Precisamos de tossir para percebermos de uma vez por todas a importância de começar a mudar os nossos estilos de vida nas pequenas e grandes coisas.

 

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Novembro 2021 - nº 717
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