Opinião
05 novembro 2021

Uma Conferência em alerta vermelho

Tempo de leitura: 4 min
Continuamos a adiar uma acção climática urgente que já era necessária desde há décadas e agora estamos quase sem tempo.
Francisco Ferreira
Associação ZERO e Professor no CENSE/FCT-NOVA
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(© 123RF)

 

«Trata-se de um alerta vermelho para a humanidade.» As palavras não são dos ambientalistas, mas de António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, com base nos dados que foram relevados em Agosto pelo primeiro grupo de trabalho do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) relativo aos fundamentos científicos das alterações climáticas, parte do seu sexto relatório. Foi um último aviso da comunidade científica mundial sobre os efeitos das emissões de gases de estufa e consequentes alterações climáticas, antes de o planeta se encaminhar para um aumento de temperatura superior a 1,5 graus Celsius. Note-se que os últimos seis anos foram os mais quentes desde que há registos históricos (desde aproximadamente 1850). Em 2020, os oceanos atingiram a sua temperatura mais elevada. Os incêndios, as inundações e as condições meteorológicas extremas dos últimos meses são apenas sinais do que se pode esperar.

Todos os anos, a comunidade internacional reúne-se no âmbito da Convenção das Nações Unidas para as Alterações Climáticas para avaliar politicamente a evolução do problema e decidir o que é necessário fazer. Em 2015, o Acordo de Paris traçou um caminho possível para evitarmos um aumento de temperatura superior a 1,5 graus Celsius. Cada país apresentou as suas metas que, no entanto, depois de somadas, se traduzem num aumento de 3,4 graus em relação à era pré-industrial. A cada cinco anos o acordo prevê uma revisão em baixa das emissões. Interrompidas pela pandemia, as negociações que deveriam ter tido lugar no ano passado têm agora lugar marcado para Glasgow (Escócia), de 1 a 12 deste mês de Novembro e determinarão a forma como viveremos num futuro próximo.

Nas últimas contas apresentadas, os compromissos já revistos e até agora anunciados melhoram as perspectivas de aquecimento para 2,7 graus, mas estão, portanto, muito longe do necessário. Ao mesmo tempo, é preciso garantir que as perdas e danos associados às alterações climáticas nos países em desenvolvimento tenham em funcionamento um mecanismo efectivo de apoio. Por último, é crucial garantir a promessa que se deveria ter efectivado em 2020 de apoio em pelo menos 100 mil milhões de dólares por ano dos países desenvolvidos aos países em desenvolvimento, com metade deste valor destinado a medidas de adaptação.

Os governos não podem ignorar os avisos. Apesar de um esforço de muitos países ou grupos de países como a União Europeia, ainda não existem planos de acção que mantenham o aquecimento global abaixo dos limites supostamente seguros. Continuamos a adiar uma acção climática urgente que já era necessária desde há décadas e agora estamos quase sem tempo. A comunidade internacional deve aumentar rapidamente a velocidade e a escala de acção necessárias para evitar alterações climáticas catastróficas. É hora de acabarmos com a nossa dependência de gás natural, carvão e petróleo e investir em empregos verdes e na construção de um futuro com zero carbono com toda a urgência.  

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Novembro 2021 - nº 717
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