Opinião
16 novembro 2021

Dar lugar ao tempo da fé para mudar o clima

Tempo de leitura: 7 min
Se a consciência ligada ao coração de cada ser humano é um nível de interpretação da realidade espiritual, ou que vai para além daquilo que é somente natural, significa que o tempo das nações deve começar a dar lugar ao tempo da fé.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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No recente livro da climatóloga Katharine Hayhoe ”Saving us” li algo que me deixou perplexo pensando na desilusão que foi a COP26 face às expectativas e à urgência de decisões políticas assertivas para manter o aumento da temperatura global abaixo dos 2º C, ou até 1,5º C. Hayhoe diz que – «os 10% mais ricos da população mundial são responsáveis por mais de 50% das emissões globais. Os 1% mais ricos produzem duas vezes mais carbono dos que os 50% mais pobres. E, enquanto esta análise se foca nos indivíduos, na prática, os grandes poluidores, proporcionalmente, são as grandes corporações de petróleo e gás que têm interesse em encorajar as pessoas a continuar a queimar combustíveis fósseis.» Em muito daquilo que tenho escrito sobre o ambiente e a mudança de estilos de vida, o foco encontra-se no valor das opções pessoais e quotidianas. E diante deste cenário fiquei preocupado, mas agravou-se.

Um pouco mais tarde no mesmo capítulo, Hayhoe afirma que — «as escolhas individuais controlam quanto muito 40% das emissões dos países ricos. Se assumirmos que os 28% de pessoas nos EUA que estão “Alarmadas” acerca das alterações climáticas estão dispostas e financeiramente capazes de diminuir a sua pegada de carbono para metade, isso significaria não mais do que 6% de queda nas emissões dos EUA. Se adicionarmos todos os que estão “Preocupados”, talvez conseguíssemos chegar aos 10%.» Quer isto dizer que muitos podem fazer muito pouco? Então, por que razão haveríamos de mudar os nossos estilos de vida se o efeito que tem a parte no todo é pouco importante?

As grandes corporações e as pessoas mais ricas deste planeta, em última instância, correspondem a grupos de pessoas com consciência. Ainda que algumas se movam mediante índices pessoais de proveito próprio, a riqueza que possuem provém do que lhes damos ao investirmos nos seus produtos e serviços. É curioso que nas bases de dados de investigação científica encontram-se muitos trabalhos sobre como desenhar produtos que alterem (positivamente) o comportamento das pessoas. Mas existe, também, o ajuste dos produtos para se conformarem ao comportamento das pessoas. Daí que algumas marcas de sabão líquido das mãos tenham começado a produzir recargas com muito menos uso de plástico, ou shampoo em estado sólido, como um sabão, embrulhado em papel que podemos reciclar. Mas, como vimos na análise da climatóloga Katharine Hayhoe, o esforço empreendido pela parte parece ter pouco efeito sobre o todo, mas talvez não seja bem assim.

O grupo restrito de seres humanos responsáveis pela maior parte das emissões de dióxido de carbono para a atmosfera que está a alterar o clima, a face do planeta, e a afectar a vida de milhares de milhões de pessoas, não posso considerar como um grupo desprovido de consciência. E, enquanto vivemos imersos em fluxos de informação onde a verdade se mistura com a falsidade, no fim, serão os fluxos de consciência que determinam os nossos comportamentos, incluindo aqueles que mais impacto ambiental produzem. A consciência das pessoas e o seu despertar para o que se está a passar à sua volta é supra-nacional. Por isso, após mais uma COP que se tornou uma desilusão, penso que chegou o momento de reconhecer que o desafio ambiental não está nas mãos das nações e dos governantes. Muitos prometem coisas a completar em anos onde, provavelmente, não serão eles a governar. Logo, se não está nas mãos dos governantes, esperam que diga que está nas nossas mãos? Sim e não.

Não está nas nossas mãos porque a consciência liga-se de forma misteriosa ao coração entendido como a totalidade daquilo que somos, e ninguém senão Deus conhece totalmente o coração de cada pessoa. Por isso, ninguém senão o próprio é que deve fazer o exame de consciência que pode levar à mudança de comportamento primando o ser, ainda que em detrimento do ser.

Por outro lado, a mudança está nas nossas mãos, porque nenhuma consciência sana existe isolada das outras consciências. E se a consciência ligada ao coração de cada ser humano é um nível de interpretação da realidade espiritual, ou que vai para além daquilo que é somente natural, significa que o tempo das nações deve começar a dar lugar ao tempo da fé.

As experiências de sofrimento vividas no contexto da fé como as guerras santas, ou a questão dos abusos de menores, poderão servir de entrave a muitos no reconhecimento de que as religiões, que extravasam o âmbito das nações, poderão chegar às consciências e realizar a mudança necessária em ricos (sobretudo) e nos pobres. Mas há que reconhecer, também, que essas experiências não põem em causa o caminho de paz e unidade que essas nos levam a fazer, mas revela antes que não podemos mais separar as dimensões espirituais e do conhecimento, como se estivessem em contraposição.

No passado dia 14 de Novembro, Dia do Pobre, o Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral lançou oficialmente a Plataforma de Acção Laudato Si’ que promove planos para grupos, famílias, instituições ou qualquer pessoa tornarem o seu estilo de vida mais sustentável. Porém, mais importante do que o acto concreto que pode fazer, é a consciência que esse acto desperta. O Faith Invest é uma outra iniciativa ao nível económico e interreligioso. São os primeiros sinais de que chegou o tempo de darmos um testemunho prático da nossa fé, alterando as consciências, a começar pela nossa.

 

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