Opinião
29 dezembro 2021

Recapitular a caminhada

Tempo de leitura: 4 min
O «Caminho de Emaús» vai ser a maneira de caminhar da Igreja, onde quer que se encontre.
Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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Caminhando o dia inteiro até Emaús, e no regresso que fizeram ao encontro dos amigos que tinham ficado em Jerusalém, os dois discípulos fizeram uma série de descobertas de grande importância. Logo depois da chegada a Jerusalém, o próprio Jesus se apresenta ao grupo inteiro, como se quisesse ajudá-los a «recapitular» o caminho feito e apontar o rumo a seguir (cf. Lucas 24,36 ss).

Mostrando-se ali pessoalmente, bem vivo, Jesus quer antes de mais esclarecer a nova situação que vai ser a razão de viver para todos eles: depois da sua morte, ele ressuscitou e vive uma vida nova em Deus e com todos os que nele acreditam. É uma vida em condições diferentes daquelas em que vivia antes da morte: agora ele pode caminhar horas com os discípulos para Emaús e, ao mesmo tempo, manifestar-se a Simão Pedro noutro lugar; já não está limitado pelo espaço nem pelo tempo e a sua manifestação é sempre nova e surpreendente: nunca O reconhecem imediatamente. Reconhecê-lo é, ao mesmo tempo, dom do Mestre e opção do discípulo. Há sempre espaço para a livre decisão de acreditar! Paulo chegará a dizer, mais tarde, «Cristo vive em mim!» – vai ser o ponto de partida e a base de todos os tipos de comunidades de discípulos que se vão formar daí em diante, ao longo dos séculos.

Os outros elementos, não menos importantes da «recapitulação» que Jesus veio fazer com os discípulos sobre a «caminhada de Emaús» são a certeza de que O vão encontrar sempre que se reunirem para «partir o pão» (eucaristia) e para recordar «as palavras que vos disse quando estava convosco», com a ajuda da «Lei de Moisés, os Profetas e os Salmos» (Sagradas Escrituras).

Quanto ao rumo que os discípulos devem seguir, nesse encontro o Mestre oferece já alguns elementos bem preciosos. Antes de mais, as suas palavras de saudação: Shalom! («A paz esteja convosco»). O próprio Jesus se torna a garantia de paz, onde quer que os seus discípulos se encontrem no futuro. A paz no seu sentido mais amplo, como plenitude de vida abençoada por Deus, será sempre o objectivo a atingir e a nota característica dos discípulos. E se está ausente, é um sinal de alarme indicando que os discípulos se afastaram do caminho indicado pelo Mestre. Depois, a sua imagem de ressuscitado que continua a ter no corpo as marcas da doação da sua vida na cruz indicam que o caminho dos seus há-de ter sempre a mesma marca: vidas como a dele, doadas a Deus e aos outros.

Outra indicação clara para o caminho futuro é o anúncio do seu Evangelho por toda a parte, a começar por Jerusalém. A boa notícia do amor misericordioso que Deus nos manifestou n’Ele vai partir de Jerusalém e espalhar-se pelo mundo inteiro.

E, finalmente, o próprio Jesus vai garantir a continuidade do projecto enviando a força e a luz do Espírito Santo que vai habilitar os discípulos para realizar esta missão. O Espírito que Ele vai enviar vai ser uma «força do Alto», a força do próprio Deus a transformar e a dar energia a cada pessoa, a cada comunidade de discípulos, onde quer que esteja, seja ela um grupito ou uma multidão imensa. O «Caminho de Emaús» vai ser a maneira de caminhar da sua Igreja, onde quer que se encontre.  

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