Opinião
20 dezembro 2021

Repensar o pensar natalício para mudar que tipo de vida?

Tempo de leitura: 5 min
Sinto que se fala pouco de Deus no Natal, mas se realizarmos gestos de amor, serão esses a linguagem gestual que falará de Deus aos outros, ainda que não se dêem conta disso.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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Aproximamo-nos do Natal e existem dois pensamentos que começam a preencher a cabeça de muitas pessoas: prendas e comida. As prendas relacionam-se com o presépio na medida em que Jesus (aparentemente) também as recebeu dos reis magos. Talvez a diferença seja que as prendas que Jesus recebeu tinham um significado especial relacionado com a sua missão neste planeta – ouro = realeza, incenso = divindade, mirra (planta medicinal) = o que iria sofrer – e será que pensamos na missão de cada pessoa nesta terra quando oferecemos algo a alguém? Por outro lado, dado o momento de reunir a família ao redor da mesa, a comida a preparar é uma preocupação em muitas casas, excepto nas que têm pouco para comer. Talvez haja nestes dois pensamentos uma oportunidade de conversão.

As prendas no contexto da época natalícia são motivo para repetidas reflexões sobre o consumismo, mas creio que essas têm servido de pouco porque todos os anos a corrida às prendas é sistemática. Ninguém acaba por fugir a essa situação, excepto aqueles que não têm possibilidades financeiras. Antigamente, no tempo da minha mãe, oferecia-se uma laranja e um chapéu de chuva de chocolate e essa era a alegria das crianças. Que sentido tem uma prenda oferecida? Pode ser o que precisamos, ou o que sabemos que o outro gosta, mas o sentido profundo de hoje que me parece valer a pena descobrir é –  «quero-te bem.» Pensar no bem do outro é mais importante do que qualquer prenda que lhe possamos oferecer.

A comida é um desafio ambiental. Em países como os Estados Unidos da América, o consumo de carne no Natal tem levado as comunidades cristãs a repensar essa opção por escolhas mais ecológicas. Claro que nos países africanos, onde ter uma galinha é um luxo, ou em Portugal que habitualmente se opta pelo peixe, repensar o consumo de carne no Natal pode fazer pouco sentido. Porém, por detrás da comida está o sentido de sobriedade e, mais uma vez, em querer o bem do outro. Reduzir a quantidade de comida diminui as sobras que podem ser deitadas ao lixo, mas se se optar por uma dieta mais vegetal, contribuímos para a saúde dos familiares que nos visitam e, no silêncio ou sorriso com que acolhemos, ou nos despedimos, dizemos – «quero-te bem.»

“Quero-te bem” através de sinais e gestos concretos na época de Natal é dizer ao outro aquilo que Deus lhe diz a cada instante. As pessoas não precisam de prendas e comida, mas de carinho e manifestações de amor fraterno. Se falta o amor ao redor da mesa, sente-se mais a ausência de Deus e o sinal será a divisão experimentada entre as pessoas ou as faltas de atenção. Recuperar o espírito de Natal como a presença de Jesus entre nós, misticamente, usando o que parece mundano, significa colocar amor e sobriedade em tudo o que fazemos em relação aos outros. Sinto que se fala pouco de Deus no Natal, mas se realizarmos gestos de amor, serão esses a linguagem gestual que falará de Deus aos outros, ainda que não se dêem conta disso. Mas repensar o Natal não passa somente pelas prendas e comida.

Noutros tempos, sem televisão, eram as histórias que animavam as noites de Natal. Os mais velhos tinham a experiência de vida e a imaginação para se tornarem, naquela noite, contadores de histórias. As histórias tinham repercussões maiores do que o entretenimento, pois continham uma filosofia de interioridade que levava quem as escutava a pensa na vida profunda, antecipando os desejos de mudança no ano novo que se aproximava. Hoje fazem-se maratonas de filmes, ou de programas para entreter as pessoas, mas suspeito que o efeito não seja o mesmo que o produzido pelas histórias. Com um mundo de entretenimento nas mãos de cada pessoa, são, também, mais frequentes os momentos em que cada um pode isolar-se com o seu ecrã. Algo tem de mudar.

Ao mudar o clima com o seu comportamento, o ser humano demonstrou que a cultura tem o mesmo poder de transformação planetária que um meteorito. Tanto quanto sabemos, até ao momento, somos o universo que pensa sobre si mesmo e evolui mediante escolhas orientadas por intenções. Não somos capazes de formular leis físicas para essas escolhas, como fazemos para a queda de um meteorito. Por isso, o ser humano precisa de tomar consciência do quanto a face do planeta depende dessas escolhas. O Natal, as prendas, a comida, as histórias que partilhamos, e o “quero-te bem” são apenas alguma fruta da época para meditar.

O que sinto necessidade de mudança está ao nível da vida interior.

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Julho 2022 - nº 726
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