Opinião
01 fevereiro 2022

O vírus da desigualdade

Tempo de leitura: 3 min
Os cristãos sabemos que é viável um modelo novo de economia, centrado na pessoa e na vida, mais humana e inclusiva, que dê voz e vez aos mais vulneráveis.
Bernardino Frutuoso
Director
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A Oxfam, uma instituição britânica que trabalha para combater a injustiça e a pobreza em todo o mundo, divulgou o seu relatório anual no final de Janeiro. Como é costume, apresentou-o em Davos, antes do Fórum Económico Mundial (evento que reúne milhares de responsáveis empresariais, políticos e activistas para debater temas da actualidade), para chamar a atenção dos participantes para as consequências da crescente desigualdade e, com base nas suas denúncias, exigir que os governos tomem medidas para reduzir a disparidade global.

O relatório sublinha que é o vírus da desigualdade, e não apenas a pandemia, que continua a devastar milhões de vidas no mundo. A crise da covid-19, refere o texto, incrementou a pobreza das pessoas mais excluídas e vulneráveis e, paradoxalmente, aumentou a acumulação de riqueza dos multimilionários, que conseguiram um aumento recorde na sua fortuna nestes dois anos. Neste período, a cada 26 horas foi criado um novo multimilionário e os dez homens mais ricos do mundo mais que duplicaram os seus activos financeiros, enquanto se calcula que os ingressos de 99% da humanidade se deterioraram. Por outro lado, estima-se que mais de 160 milhões de pessoas foram empurradas para a pobreza nesse tempo de crise sanitária. Além disso, a cada minuto, 15 pessoas em todo o mundo perdem a vida por falta de acesso a cuidados de saúde, por causa dos impactos da crise climática, da fome e da violência baseada no género.

A crise das vacinas contra o novo coronavírus também revela a injustiça social presente no planeta. A iniciativa Covax fracassou no seu objectivo de repartir 2 mil milhões de vacinas entre os países com baixos rendimentos no final de 2021 e, actualmente, menos de 1% das vacinas produzidas pelas grandes empresas multinacionais chegaram às pessoas que vivem nos países de rendimentos baixos. Na África, só 10% das pessoas têm o processo de vacinação completo, de acordo com a Our World in Data (23 de Janeiro de 2022).

Esta situação, como sabemos, é a consequência de um sistema económico mundial que funciona mal e que não mudou nem sequer durante um fenómeno destrutivo e global como a pandemia.  É um mundo onde triunfa, como denunciou em diferentes ocasiões o Papa Francisco, «uma economia que mata» e uma antropologia individualista que a anima. Um sistema económico que tem como resultado a exclusão de grandes massas humanas, atiradas existencialmente para becos sem saída.

Os cristãos sabemos que é viável um modelo novo de economia – como bem se expressa no âmbito da iniciativa A Economia de Francisco –, centrado na pessoa e na vida, mais humano e inclusivo, que dê voz e vez aos mais vulneráveis, aos que vivem na periferia. E, enquanto afirmamos que outra economia é possível, esforçamo-nos por ser Igreja samaritana, comprometidos activamente no apoio solidário aos mais frágeis e no cuidado da Criação; trabalhando no delineamento de soluções que contribuam para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna, onde todos nos sintamos peregrinos e locatários da mesma casa comum. 

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Editorial
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EDIÇÃO
Julho 2022 - nº 726
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