Opinião
27 fevereiro 2022

O canto sagrado dos rios

Tempo de leitura: 4 min
Os rios são como a presença de Deus, chegando a todo o lado para fazer nascer e crescer a vida.
Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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Para os povos que vivem nas terras altas da cordilheira dos Andes, na América do Sul, os rios são uma realidade sagrada. Através da rede de correntes de cada um dos rios, todos os elementos da Natureza vivem conectados entre si. É a rede dos rios que continua a alimentar a vida de todas as criaturas, plantas, animais e mesmo as pessoas, que vivem nas suas margens. Com as suas águas, os rios continuam a levar alimento e vida até aos recantos mais escondidos.

É a água dos rios que irriga os campos, dá vida às árvores e aos animais selvagens, faz viver todas as espécies de peixes e mantém a vida das aldeias. Eles gostam de dizer que a água dos rios é uma música que penetra por todo o lado espalhando alegria. É por causa da água que as plantas podem crescer, e as suas folhas verdes aproveitam o vento para assobiar melodias sempre novas. É uma música suave, que cada criatura recebe e vai transmitindo a todos os seres à sua volta.

Eles lembram sempre que o próprio corpo das pessoas é formado com muita água. Sem a água preciosa que o rio traz, o nosso corpo fica ressequido e deixa de viver.

Os rios são como a presença de Deus, chegando a todo o lado para fazer nascer e crescer a vida. Estas tradições religiosas das montanhas andinas fazem-nos pensar logo na visão bíblica do profeta Ezequiel (Ez 47, 1-13), do rio que nasce dentro do templo de Deus, e corre por baixo da porta, em direcção ao Oriente. Por onde quer que passa, o rio das águas de Deus faz brotar a vida, árvores verdes onde antes havia deserto, frutos que amadurecem doze vezes cada ano, charcos malcheirosos de águas paradas que se renovam e ficam de novo cheias de peixes de toda a espécie…

Alguns desses povos andinos têm mesmo rituais religiosos para reconhecerem a fonte de tanta bondade: antes de deitar a piroga à corrente para atravessarem para a outra margem, respeitosamente pedem licença ao rio, e lá onde um afluente vem mergulhar no rio maior, eles vão fazer rituais de agradecimento e de comunhão, «partilhando com o rio» um pouco das bebidas que mais apreciam. É que, na vida das suas famílias, nos filhos que vão nascendo e crescendo, e nas reuniões de amigos, eles sentem a mesma «melodia sagrada dos rios» como uma «graça divina» sempre presente a gerar e fazer brotar vida nova.

Ao encontrarmos estas expressões de religiosidade tradicional nos povos a quem levamos o evangelho de Jesus, nós, missionários, ficamos maravilhados ao descobrir como o Espírito de Deus foi soprando no coração destas gentes ao longo dos séculos para eles perceberem a presença boa dessa realidade a que nós chamamos «a graça de Deus», presente e activa na Natureza que os rodeia.

E não admira que hoje tenhamos sempre mais consciência que poluir os rios, descarregar para lá produtos químicos que envenenam as águas, é um crime contra a Natureza e um verdadeiro pecado contra a bondade de Deus, que nos ofereceu uma casa comum, onde podemos, como os povos das montanhas do Andes, sentir essa tal «música dos rios» e receber a vitalidade das águas que jorram sempre da mais alta de todas as montanhas, que é o coração de Deus. 

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