Opinião
28 março 2019

A história do grande justo

Tempo de leitura: 5 min
Também nós, como Job, precisamos de aceitar com alegria os dons que Deus nos envia, seja qual for a sua origem.
Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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Estamos, talvez, no início do século v antes de Cristo. A história que encontramos no livro de Job interroga-nos acerca de um dos grandes mistérios da vida: porque sofre uma pessoa que é justa e que sempre fez o bem?

Essa pergunta não nos apoquenta só a nós, cristãos. É um mistério da vida que interroga todos, sejam eles de que religião forem, e mesmo quem não segue nenhuma crença religiosa.

Este livro da Bíblia está escrito de maneira bastante complexa, mas não vamos estudá-lo aqui. Indico só alguns elementos importantes que nos podem ajudar na nossa reflexão sobre a relação entre a nossa fé cristã e as outras religiões do mundo.

Em duas ou três pinceladas, a história de Job apresenta-o como um famoso homem bom e justo, que fazia em tudo a vontade de Deus, e Deus tinha-o premiado com saúde, uma família grande e muitas riquezas.

Depois aparece Deus, que faz uma reunião de todos os seus filhos celestes, entre os quais um que dá pelo nome de Satanás! E é este último que conta como, passeando pela terra, deu com este tal Job. E é o mesmo Satanás que desafia Deus: não admira que Job te seja fiel e viva uma vida santa; mas será que continuará a servir-te fielmente se vier a encontrar-se na pobreza, na solidão e na dor? Deus aceita o desafio, e as desgraças começam a cair sobre o grande justo: as suas riquezas ficam reduzidas a cinza, depois perde os filhos, um atrás do outro e, para cúmulo, apanha uma doença terrível que lhe cobre o corpo de chagas. Os amigos, e mesmo a esposa que desde sempre partilhava a sua vida feliz, tentam convencê-lo de que Deus o abandonou e que é melhor que também ele abandone Deus. Contra tudo e contra todos, no meio do seu sofrimento imenso, Job chega quase a insultar a Deus, mas decide finalmente que Deus é o Senhor de tudo, Deus sabe o que faz, e não toca a um homem julgar o criador que lhe deu a vida. A seu tempo, Deus recompensa Job pela sua fidelidade total mesmo na miséria, na solidão de quem perdeu a família, e na doença.

Numa época em que o povo de Israel enfrentava o desafio de continuar fiel à Aliança com Deus, mesmo no tempo de tremendas dificuldades no presente e das grandes incertezas do futuro, a história de Job renovou a fé e a esperança em muita gente.

Dizem-nos os estudiosos que o autor deste livro tinha viajado pelo Egipto e outros países do Médio Oriente e por lá tinha escutado esta história do grande justo. De facto, antes de chegar a Israel, esta história pertencia à religião de um outro povo, mas Deus fez com que ela se tornasse Sua Palavra também para os membros do seu Povo Eleito. Deus usou um “pedaço de Escritura” de uma outra tradição religiosa para ensinar alguma coisa de importante ao povo de Israel. Na Bíblia encontramos outros textos que também vieram “de fora”. Deus é o Deus de toda a humanidade e pode usar elementos do caminho religioso de um povo para servir de ensinamento a outro povo.

Também nós, como Job, o Grande Justo, precisamos de dizer «o homem não pode julgar a Deus seu Criador» e aceitar com alegria os dons que Deus nos envia, seja qual for a sua origem.

 

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EDIÇÃO
Julho-Agosto 2019 - nº 693
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