Opinião
16 maio 2022

Não poderia o ar condicionado ser um direito humano?

Tempo de leitura: 7 min
Se somos tão criativos para desenvolver telemóveis que fazem pouco mais do que faziam o modelo anterior, por que não usar dessa criatividade em prol de uma solidariedade que fizesse do ar condicionado um Direito Humano?
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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(© rawpixel)

 

A onda de calor recente na Índia e o drama humano que daí advém levou muitos a pensar no ar condicionado como um Direito Humano, assim sugere um artigo de opinião na Scientific American, uma vez que essa tecnologia não é acessível a todos e talvez devesse ser. Este aumento da temperatura global do planeta resulta das alterações climáticas que não se restringe ao modo como os nossos estilos de vida afectam o ambiente natural ou a produtividade das empresas, mas afecta também a saúde das pessoas.

Ahmed, um cidadão indiano semelhante a cada um de nós partilha com o jornal britânico The Gaurdian como tudo está cada vez mais difícil de suportar. A electricidade falha, falhando o ar condicionado e o frigorífico, dizendo Ahmed que — «estamos a viver no inferno.» — E esta é uma entre inúmeras histórias que nos parecem longe diante do conforto que uma boa parte das pessoas em climas mais temperados (como nós) vive. O mais próximo que temos em Portugal é o quente Alentejo. E há quem goze com os alentejanos por ficarem a descansar à sobra de um chaparro sem nada fazer, mas experimentem fazer seja o que for com 42º C. Não dá.

O calor que o corpo humano recebe provém da radiação térmica solar directa e da absorvida pelas estruturas humanas que, uma vez aquecidas, emitem mais radiação térmica do que o habitual. Podemo-nos proteger com uma sombra da radiação directa, mas a radiação que as estruturas emitem, mais a que é absorvida pelo ar quando a ventilação é fraca torna o ambiente onde vivemos insuportável. A forma que temos de arrefecer o corpo seria através da transpiração e respectiva evaporação. Pois, a água precisa de energia para evaporar e vai buscá-la ao corpo, arrefecendo-o. Mas se o clima estiver muito húmido, a água não consegue evaporar, suamos muito sem conseguirmos arrefecer. O resultado é a desidratação, dores de cabeça e grande sofrimento. Se uma família na Índia não tiver ar condicionado, a sua casa torna-se um forno que os coze lá dentro. É impossível ficar indiferente a este drama. De quem é a culpa?

Em 1910, numa coluna para o The Illustrated London News, G.K. Chesterton escreveu que — «o dom principal do clima quente para mim é, de algum modo, o benefício pouco popular chamado de sentença do pecado. Durante todo o resto do ano sou desorganizado, preguiçoso, estranho e fútil. Mas no clima quente, eu sinto-me desorganizado, preguiçoso, estranho e fútil.» — ou seja, com o aumento da temperatura em muitas partes do nosso planeta, parece termos desculpa para as falhas do nosso estilo de vida e comportamentos, escondendo a incapacidade de sair da nossa zona de conforto por detrás da culpa que atribuímos ao tempo meteorológico.

Na Laudato Si’ este aspecto não é claro. No n.º 55, o Papa Francisco fala do aumento dos hábitos nocivos de consumo e dá como exemplo os condicionadores de ar (ou equipamentos de ar condicionado) e o crescente aumento do seu uso e intensidade. Uma boa parte dos condicionadores de ar actuais são bombas de calor cujo desempenho usa menos energia elétrica do que a energia que fornece na forma de calor ou frio para climatizar um espaço. Ao contrário de caldeiras a gás, aquecedores a óleo por resistência elétrica, o princípio físico das bombas de calor (onde se incluem os equipamentos de ar condicionado) não produz calor ou frio, mas transporta o calor (para que haja mais, aquecendo; ou menos, arrefecendo) que existe já no ambiente. Nesse sentido, o seu crescente uso para manter habitável as casas em climas quentes não se pode considerar um “hábito nocivo de consumo”, mas uma forma inteligente de proporcionar conforto ambiental às pessoas que mais precisam. Como estou certo de que o Papa não é especialista em ar condicionado, só posso pensar que não foi aconselhado da melhor maneira no exemplo. O problema está na inacessibilidade das pessoas mais pobres a esta tecnologia. Por isso, a natureza da crise ambiental é, também, humana e espiritual, exigindo solidariedade e compaixão. 

Uma vacina não é barata, mas as nações encontraram forma de serem solidárias umas com as outras, de modo a que chegassem ao maior número possível de pessoas para combater a pandemia. O mesmo poderia acontecer com a tecnologia que nos pode ajudar a superar as dificuldades em respirar e manter os corpos arrefecidos por causa do clima quente adveniente das alterações climáticas. Mas isso não nos iliba de procurarmos sair da desorganização, preguiça, comportamentos estranho e futilidades, como reconhecia Chesterton.

A crise espiritual está na incapacidade de nos “fazermos um” com os nossos irmãos, saindo da inércia dos confortos oferecidos por vivermos em países com recursos suficientes para manter os nossos espaços habitáveis. Mantemo-nos inconscientes de que o modo como usamos a energia reflecte-se nas alterações climáticos e, consequentemente, na crise de saúde nos mais pobres que não têm acesso aos mesmos recursos. Não conseguem transpirar para arrefecer o seu corpo à custa da nossa indiferença. De quem é a culpa? Em vez de andarmos a pensar nisso, talvez fosse melhor arregaçar as mangas, organizarmo-nos melhor, sairmos da preguiça, mudar os nossos comportamentos e redescobrir que o valor de um estilo de vida sustentável pode ajudar um pobre do outro lado do mundo. Por fim, se somos tão criativos para desenvolver telemóveis que fazem pouco mais do que faziam o modelo anterior, por que não usar dessa criatividade em prol de uma solidariedade que fizesse do ar condicionado um Direito Humano?

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