Opinião
26 junho 2022

O alforge da noite

Tempo de leitura: 4 min
O próprio Jesus era bem conhecido por sair, muitas vezes, para um lugar solitário para longos diálogos com Deus, no segredo da noite.
Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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(© 123RF)

 

Missão é dar e receber. Quem é enviado em missão, leva consigo o Evangelho de Jesus, a fé cristã, a experiência de comunidade que vamos construindo juntos. Também recebemos muito e, quando partimos, levamos um “alforge” cheio de coisas lindas para partilhar. No encontro com o povo ao qual somos enviados, encontramos tesouros de sabedoria que sempre nos surpreendem.

Já há alguns meses que partilho nesta página algumas reflexões sobre a ligação entre a fé que anunciamos como missionários e o mundo da Natureza que nos rodeia. Um povo indígena do Brasil lembra, numa antiga lenda, o dom que é a noite, a escuridão. Contam eles que, no princípio do mundo, não havia noite na Terra, era sempre dia e tudo estava completamente iluminado sem interrupção. Então o rei da Terra pediu ao rei das profundezas escuras do mar que lhe desse a sua filha em casamento. Ele aceitou, e lá veio a princesa. Pouco tempo depois, ela começou a definhar e a ficar feia, com tanta luz ela não tinha descanso e a vida tornava-se triste e insuportável. Mandou então alguns servos ao seu pai, nas profundezas escuras do mar, que lhe trouxessem um alforge cheio de noite e escuridão. Foram, e regressaram logo, mas ao porem pé na terra de novo, começaram a ouvir, lá dentro do alforge, melodias desconhecidas, o canto de pássaros nocturnos, sentiram estranhos perfumes a sair lá de dentro e, cheios de medo, deixaram cair o alforge, que, ao tocar no chão, se abriu logo, deixando sair cá para fora as sombras da noite, os pássaros e animais que só saem no escuro, as rãs que cantam nos pântanos ao cair da noite, as flores que soltam os seus perfumes fortes a coberto da escuridão... Todo o mundo da noite fugiu do alforge e se espalhou pela Terra.

E foi assim que os tesouros da escuridão não ficaram só na posse da filha do rei, mas se espalharam pelo mundo inteiro.

A partir desse dia – pois então começou a alternar-se um tempo de luz, o dia, e um tempo de escuridão, a noite – também os humanos começaram a apreciar a beleza que é o pôr do Sol que anuncia a paz do crepúsculo, ficaram extasiados com a maravilhosa sinfonia de sons e cantos que se ouvem à noite, quando os ruídos do dia se acabam. Quem já gostava de cheirar as flores, ficou encantado com o perfume que algumas delas exalam só quando desce a escuridão da noite. Muitos aprenderam a olhar para o céu e gozar o extraordinário espectáculo que é uma noite estrelada. Outros descobriram a paz da noite em que deixam a azáfama dos trabalhos do dia e se concentram no carinho das pessoas com quem partilham o caminho da vida. E muitos, muitos mesmo, descobriram a noite como o templo mais belo onde encontrar a Deus e a sua paz.

Este povo do Brasil aprendeu a apreciar a importância e o valor da noite seja para a Natureza, seja também para a nossa vida humana. Podemos descobrir muito em comum com a nossa tradição cristã: a noite como o convite à interioridade, aos afectos pessoais, ao silêncio onde se recupera a serenidade e se entra em contacto com Deus. O próprio Jesus era bem conhecido por sair, muitas vezes, para um lugar solitário para longos diálogos com Deus, no segredo da noite. 

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Julho 2022 - nº 726
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