Opinião
03 junho 2019

Desafio ambiental

Tempo de leitura: 5 min
Temos de gerar processos de mudança interior que favoreçam uma ecologia integral, modifiquem o nosso estilo de vida e a nossa relação com a Mãe Terra.
Bernardino Frutuoso
Director
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Nos últimos meses, os meios de comunicação têm dado visibilidade aos milhares de estudantes de todo o mundo que, estimulados pelo movimento Fridays for Future, se estão a mobilizar para solicitar à família humana, especialmente àqueles que ocupam posições de poder político e económico, que tomem medidas drásticas para mudar de rumo, deter as alterações climáticas e salvar a vida no planeta. As novas gerações – que muitos consideravam apáticas e pouco interessadas nos temas sociais e ambientais – fazem ouvir a sua voz no espaço público global e expressam a sua inconformidade e frustração com a rota que a Humanidade está a seguir em relação ao cuidado da Casa Comum.

Estas manifestações em favor do meio ambiente, cada vez mais globais, visíveis e virais graças ao uso das tecnologias de comunicação e às redes sociais, ajudam a construir uma cultura cidadã de respeito pela Terra e põem o tema ecológico na agenda pública. O cardeal Peter Turkson, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral da Santa Sé, alerta num texto para comemorar o 4.º aniversário da encíclica Louvado Sejas do Papa Francisco, para a necessidade de respeitar o limiar dos 1,5 graus Celsius, como forma de defender os países e as populações mais pobres que, como referia Francisco na sua encíclica verde, «sofrem os efeitos mais graves de todas as agressões ambientais». Os pobres são, efectivamente, os mais afectados pelas alterações climáticas. Segundo um recente estudo da Universidade de Stanford (Califórnia, EUA), o aquecimento global aumentou a desigualdade social ao reduzir o crescimento de países de clima quente, como Índia, Brasil e Nigéria, enquanto países desenvolvidos, como Noruega e Suécia, ficaram ainda mais ricos. O abismo entre as nações mais pobres e as mais ricas do mundo é 25% maior do que seria sem o aquecimento global, afirmam os autores da investigação, que analisa o período entre 1961 e 2010. No entanto, a longo prazo o impacto do aquecimento global é prejudicial para todos.

A Terra e os seus recursos naturais são dons para todos. Em 2009, o Prémio Nobel da Economia foi concedido a Elinor Ostrom pela sua teoria da gestão dos recursos comuns. Os estudos da economista revelam que, desde que o conjunto de princípios e de regras de propriedade colectiva estejam bem definidos, sejam aceites e respeitados por todos, consegue-se evitar a sobreexploração dos bens comuns, nomeadamente de pastos, bosques, lagos e bacias hidrográficas. Uma abordagem de cooperação, equidade e solidariedade que se impõe neste momento histórico em que, governantes e cidadãos, precisamos de encontrar soluções criativas para limitar o aquecimento global.

Enfrentar a actual crise climática é um desafio que a Humanidade não pode adiar, é uma «obrigação moral», nas palavras do cardeal Turkson. Sabemos que a consequência das nossas acções em relação ao desrespeito pelo planeta é que a vida deixe de ter condições para existir, como sublinha o astrofísico Neil DeGrasse Tyson: «O planeta Terra sobrevive a colisões de asteróides maciços – sobreviverá a tudo o que lhe atirarmos em cima. Mas a vida na Terra é que não.» Juntos, como família humana, temos de gerar processos de mudança interior que favoreçam uma ecologia integral, modifiquem o nosso estilo de vida e a nossa relação com a Mãe Terra.

 

 

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Editorial
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EDIÇÃO
Junho 2019 - nº 692
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