Opinião
20 junho 2022

Dar vida a uma ecologia do cuidado

Tempo de leitura: 4 min
A sensibilidade ao impacto que os nossos comportamentos têm no clima planetário varia muito de pessoa para pessoa. Mas o potencial de uma fé partilhada globalmente é o de extravasar as fronteiras do indivíduo, língua, raça ou nação, e abraçar a realidade de sermos todos irmãos.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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(© Bonnie Kittle)

 

O planeta não está a arder, mas os 51 °C recentemente experimentados pelos paquistaneses desafiam o limite humano de aguentar estas ondas de calor. Depois, enquanto o ar condicionado com bombas de calor não se tornar um Direito Humano, como proposto por alguns, muitos sofrerão por esta alteração climática. Uma alteração gerada pelo comportamento humano acumulado ao longo de séculos. Impressiona ver as pessoas debaixo de canos a verter água, ou em gestos de solidariedade derramando água na cabeça uns dos outros. E se fosses tu a estar imerso naquela onda de calor?

Na estrada continuamos a ver carros a acelerar, a fumegar, pessoas com pressa e sem consciência de que esse é um dos muitos comportamentos que alimentam o drama das alterações climáticas. Em 2005, o Papa Francisco oferece a primeira Carta Encíclica dedicada ao relacionamento do ser humano com a natureza, a Laudato Si’. E, em 2021, lança a Plataforma de Acção Laudato Si’ (plataformadeacaolaudatosi.org) para estimular os milhares de milhões de católicos por todo o mundo a agir e testemunhar um relacionamento com a criação diferente. Porém, ao participar no apoio consultivo internacional desta plataforma, percebi como em algumas partes do mundo existem bispos que não leram esta Encíclica ou não lhe dão a devida importância. E sabendo que somos milhões, apenas milhares têm-se registado nesta plataforma. Por que razão?

Toda a mudança dá trabalho e exige esforço. A sensibilidade ao impacto que os nossos comportamentos têm no clima planetário varia muito de pessoa para pessoa. Mas o potencial de uma fé partilhada globalmente é o de extravasar as fronteiras do indivíduo, língua, raça ou nação, e abraçar a realidade de sermos todos irmãos. E se somos todos irmãos, parte de uma só família da criação, deveria sentir no meu corpo os 51 ºC experimentados pelos paquistaneses, a responsabilidade por isso na minha consciência e (re)começar o caminho que faz da vida um testemunho dessa percepção. Será que o caminho sinodal pode ajudar?

Pelas várias Paróquias e Comunidades, o Papa Francisco convidou à reflexão sobre o modo sinodal de ser Igreja, abrindo um espaço de diálogo que (re)pensa sobre as estruturas e vida da Igreja, e qual o impacto que essas têm no relacionamento com o mundo contemporâneo. Mas nos resultados que têm vindo a público é raro ou inexistente considerar-se o comportamento ambiental das comunidades ou o sentir da sua espiritualidade ecológica como parte da essencialidade da Igreja.

Na Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Querida Amazónia”, o Papa partilha um “sonho ecológico” e logo no início dessa parte diz — «O Senhor, que primeiro cuida de nós, ensina-nos a cuidar dos nossos irmãos e irmãs e do ambiente que Ele nos dá de prenda cada dia. Esta é a primeira ecologia que precisamos» (n. 41). Ou seja, convida-nos a desejar a Ecologia do Cuidado. Quando penso nos irmãos do Paquistão, como posso viver esta ecologia do cuidado se não for através de uma mudança no meu comportamento? Para muitos poderia começar por acelerarem menos.

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Artigos
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EDIÇÃO
Julho 2022 - nº 726
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