Opinião
11 agosto 2022

Formigas e elefantes

Tempo de leitura: 4 min
Há uma maneira boa de decidir melhor o nosso futuro: passar da ecoansiedade à ecocriatividade.
Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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(© 123RF)

 

Os dois jovens estudantes olhavam extasiados para a imensa extensão de savana naquele parque natural do Quénia. Ao longe, uma manada de elefantes pastava tranquila, no meio da erva alta. O guia perguntou aos jovens: «Sabeis quem semeia esta extensão imensa de erva para os elefantes terem que comer todos os dias?» «Quem?», perguntaram. «As formigas», foi a resposta dele. «São muitos milhões, pelo parque fora, e são elas que espalham as sementes que a chuva vai regar e fazer crescer. Por incrível que pareça, são as formigas que fazem a sementeira para os elefantes se alimentarem. A Natureza é assim! É uma teia maravilhosa de sistemas ecológicos ligados entre si. Cada nó da teia apoia e reforça todo o sistema. Quando interferimos com uma espécie animal ou com um ecossistema, mesmo pequeno, estamos a influenciar, para bem ou para mal, todos os sistemas que lhe estão ligados», concluiu.

Há poucos meses, um autor, realizador e activista francês, Cyril Dion, escreveu um livro com o título Animal, e depois fez um documentário sobre o mesmo tema. Dois jovens de 16 anos, Bella Lack e Vipulan Puvaneswaran, guiados pela primatologista Jane Goodall fazem uma viagem extraordinária por vários pontos do planeta, para encontrar pessoas que estão a intervir nos sistemas ecológicos, alguns de maneira que eles acham negativa, como o produtor industrial de carne de coelho, e outros de maneira extraordinariamente positiva, como o jovem advogado que começou a tirar sacos de plástico de uma praia de Bombaim, na Índia – conseguiu mobilizar tanta gente, pessoas e organizações, que, em três anos, retiraram nove mil toneladas de plásticos e restauraram a praia ao seu lugar na Natureza, mar e areia.

Com o livro e o documentário, Cyril Dion quis mostrar que a ecoansiedade em que vivem muitos jovens de hoje, convencidos de que o futuro está ameaçado, pois este nosso mundo está a ficar todo contaminado e que não há meio de voltar atrás, tem razão de ser porque a situação é preocupante, mas também quis mostrar que há uma maneira boa de decidir melhor o nosso futuro: passar da ecoansiedade à ecocriatividade. Há jovens, e pessoas de outras idades, mesmo crianças, que conseguem passar das palavras aos gestos concretos, começam já por mudar o que está ao alcance das suas mãos, e também conseguem influenciar a maneira de pensar e de agir de muitas outras pessoas.

Ao ver este documentário, vem-me à mente aquele versículo bíblico que diz «a Terra está cheia da bondade do Senhor» (Salmo 33, 5). De facto, para quem tem fé, a maneira como as criaturas e os ecossistemas se apoiam uns nos outros, muitas vezes “dando de comer” uns aos outros, é um sinal claro de que o Criador do Universo traduziu o seu amor ao mundo lançando para a vida não criaturas isoladas, mas grupos interligados, ecossistemas em que os vários níveis da Natureza se protegem e se apoiam uns aos outros. Nós, seres humanos, podemos ter um papel fundamental para que todos possam ver e experimentar que «a Terra está cheia da bondade do Senhor», e que o Seu Espírito Santo continua a soprar na criação inteira. 

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Outubro 2022 - nº 728
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