Opinião
27 outubro 2022

O Vale Sagrado

Tempo de leitura: 4 min
O Vale Sagrado dos Incas pode ainda hoje inspirar e enriquecer a nossa maneira de acreditar que «Deus alimenta o seu povo».
Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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(© Lusa)

 

A uns 35 quilómetros da cidade de Cusco, nas montanhas dos Andes do Peru, encontra-se o Vale Sagrado do antigo povo Inca. Pelo meio do vale corre o rio Urubamba, alimentado por vários afluentes, que faz de toda esta zona uma terra extraordinariamente fértil. Os antigos Incas pensavam que era este vale que dava o alimento a todo o povo. Era aqui que celebravam a festa ao deus Sol, todos os anos no dia 24 de Junho (no hemisfério sul corresponde ao nosso 24 de Dezembro). Ainda hoje se faz a festa, mesmo se muitos pensam que já perdeu o seu valor religioso e ficou só o folclore.

Este vale é o lugar da festa anual do Sol, e, nas margens do rio, encontram-se monumentos antigos que reproduzem o desenho das constelações de estrelas que daqui se vêem no céu. É como se todo o Universo (Sol, estrelas, Terra, montanhas, rios…) estivesse presente!

Estes elementos da antiga religião do povo Inca, destas montanhas, são suficientes para lembrar algo de muito importante a todos os missionários: Deus precede-nos. Deus não esteve ausente da vida destes povos. Ao longo dos séculos passados da sua história, muito antes da chegada dos primeiros missionários cristãos, o Espírito de Deus já foi inspirando às pessoas mais espirituais desse povo coisas que hoje nós reconhecemos como verdadeiras sobre Deus e sobre a maneira como Ele acompanha o caminho da Humanidade.

 

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(© 123RF)

 

Por exemplo, estes Incas percebiam e celebravam a bondade de Deus – que eles viam espelhado no Sol que lhes dava luz e calor. Celebravam a festa ao deus Sol, ali, no vale sagrado que alimentava o povo com a sua fertilidade. Era a luz do Sol que fazia derreter as neves das montanhas mais altas para alimentar os rios, que regam a terra que a todos dá alimento. Não admira que uma parte central da grande festa anual era quando em todas as casas se apagavam as lareiras e ficava acesa só a grande fogueira – o fogo novo – no centro da festa. E era desse fogo novo que se iam acender de novo todas as lareiras nas casas, para preparar a comida. Assim, por mais um ano, Deus alimentava o seu povo!

Nos nossos dias, nós, missionários, estamos muito mais atentos às manifestações religiosas pré-cristãs, que antigamente se chamavam «religiões pagãs». Diante destas práticas religiosas, a Igreja convida-nos hoje a «identificar, purificar e integrar». Isto é, a «identificar» aqueles elementos que mostram a presença activa de Deus na história destes povos, a «purificar» aquilo que possa ser contrário ao Evangelho de Cristo, e a «integrar» tudo aquilo que é bom e pode servir para a glória de Deus e o bem das pessoas, mesmo que sejam elementos novos em relação às tradições cristãs que conhecíamos.

Dizem as crónicas que a última festa do Sol, feita na presença do imperador inca, foi celebrada no ano de 1535, mesmo antes de lá chegar a invasão espanhola. Mas ainda hoje, na festa cultural do dia 24 de Junho, muitos incas dos nossos dias se concentram no Vale Sagrado, porque percebem o valor e a beleza das antigas tradições do seu povo. O Vale Sagrado dos Incas pode ainda hoje inspirar e enriquecer a nossa maneira de acreditar que «Deus alimenta o seu povo». 

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