Opinião
05 dezembro 2022

Justiça climática e filosofia ubuntu

Tempo de leitura: 4 min
É tempo de cuidar da Casa Comum, com coragem e aprendendo com a filosofia africana ubuntu.
Bernardino Frutuoso
Director
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(© Lusa/EPA/Khaled Elfiqi)

 

Ouça o audio editado pela Rádio JIM http://radio.jim.pt

 

No passado mês de Novembro, realizou-se na localidade egípcia de Sharm el-Sheikh a Conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas (COP27). Esta cimeira não passará à História por ter adoptado medidas que conduzam a um ponto de inflexão no cuidado do planeta. Um vislumbre de esperança, no entanto, foi a aprovação de uma resolução que enfatiza a «necessidade imediata de recursos financeiros novos, adicionais, previsíveis e adequados para ajudar os países em desenvolvimento que são particularmente vulneráveis» aos impactos económicos e não económicos das alterações climáticas. Entre essas possíveis modalidades de financiamento está a criação de um «fundo de resposta a perdas e danos», uma reivindicação antiga dos países em desenvolvimento. Este acordo, considerado histórico por muitos peritos, é um passo fundamental no caminho da justiça climática, mas arrisca-se a ser letra morta, pois as modalidades de execução do fundo serão elaboradas por uma comissão especial e adoptadas na próxima COP28, no final de 2023, nos Emirados Árabes Unidos.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, tinha alertado no início da cimeira que «estamos na estrada para o inferno climático com o pé ainda no acelerador». Infelizmente, os dirigentes do mundo presentes também não ouviram este apelo e não houve concertação em temas fundamentais, que permitam enfrentar a emergência climática, nomeadamente a necessidade de reduzir drasticamente as emissões de gases com efeito de estufa ou eliminar gradualmente todos os combustíveis fósseis, condição essencial para assegurar um aquecimento não superior a 1,5 °C em relação à era pré-industrial (ver página 9). As ONG ambientalistas ZERO e Oikos assinalam, num comunicado conjunto, que esta COP27 e todos os países que nela participaram «não souberam defender o futuro da Humanidade perante os interesses das grandes empresas de petróleo e gás. Não é à toa que esta COP acolheu, através das delegações de diversos países, mais de 600 lobistas de combustíveis fósseis».

Esta cimeira realizou-se na África e fez olhar para este continente repleto de belezas e muitíssimos recursos naturais. Para a vida saudável no planeta contribuem também os povos da África, que precisam de ver os seus ecossistemas protegidos, conservados e restaurados, como referimos neste número da Além-Mar em relação ao seu «pulmão», a bacia do Congo (ver páginas 38-43). 

É tempo de cuidar da Casa Comum, com coragem e aprendendo com a filosofia africana ubuntu, que significa «eu sou porque nós somos» e propõe uma alternativa de convivência social e planetária pautada pelo altruísmo, a fraternidade, a solidariedade, o respeito e a colaboração entre os seres humanos. Salvar o planeta e reduzir as emissões de gases com efeito de estufa é uma responsabilidade de todos, sobretudo dos países que mais poluem. Para isso, são necessárias propostas que permitam a transição ecológica e incentivem a adopção de paradigmas sustentáveis de desenvolvimento, favorecendo o crescimento das comunidades mais vulneráveis, que pouco ou nada contribuem para as emissões globais, mas são as que mais sofrem com o impacto de fenómenos climáticos extremos.  

 

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Editorial
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