Opinião
17 junho 2019

Uma graça

Tempo de leitura: 5 min
Através do anúncio do Evangelho, ajudamos as pessoas a descobrir essa graça que as acompanha desde sempre.
Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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Conheço um missionário que, aqui há uns anos, caiu numa emboscada. Ao passar por uma zona de guerrilha, o comboio de carros e camiões em que viajava foi atacado e, enquanto os soldados da escolta e os guerrilheiros trocavam rajadas de metralhadora, ouviam-se as balas a assobiar por perto. O estrondo que faziam quando batiam no ferro dos camiões ou dos carros era impressionante.

Houve quem morreu, e quem ficou ferido. Durante todo o tempo, o missionário, encolhido no fundo do carro, pensava que «a sua bala» podia chegar de um momento para o outro; o melhor era agradecer a Deus a vida que tinha vivido: era bonita e tinha valido a pena! Uma paz extraordinária enchia o seu coração e uma serenidade que só a presença de Deus podia explicar.

Mais tarde pensou: foi um momento em que tocou muito de perto a presença de Deus. Um verdadeiro momento de graça!

Ao pensar nesta história (verdadeira!), penso que muitos de nós, crentes, podemos lembrar momentos especiais da nossa vida em que sentimos Deus tão perto de nós que, gostamos de dizer, “tocámos com mão” a sua presença benfazeja, a sua graça. São momentos preciosos que marcam para sempre a história da vida de cada um.

Pergunto a mim mesmo: para nós, são momentos excepcionais, mas, da parte de Deus, haverá momentos em que Ele está connosco e outros momentos em que não está? Certo, Deus não muda de um momento para o outro, Ele está sempre presente; é bonito pensar que a sua graça acompanha cada momento da nossa vida. O que muda é a nossa capacidade de nos sintonizarmos com Ele e com a sua graça. Certas experiências particulares da nossa vida levam-nos a perceber essa presença de maneira mais ou menos forte. Alguns santos parece que viviam sempre sintonizados com Deus. É, talvez, por isso que São Paulo convidava os cristãos a «rezar sempre sem cessar».

Uma outra pergunta: se Deus é Pai de todos os membros da família humana, de qualquer tempo e lugar, e se Cristo deu a sua vida por toda a humanidade, e não só por aqueles que acreditam nele, podemos pensar que essa sua presença benfazeja, a sua graça, é oferecida a todos os homens?

O Concílio Vaticano II (1965) deu uma resposta corajosa a essa pergunta: «E o que fica dito (o cristão é salvo por Cristo), vale não só dos cristãos, mas de todos os homens de boa vontade, em cujos corações a graça opera ocultamente. Com efeito, já que por todos morreu Cristo [...], devemos manter que o Espírito Santo a todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal por um modo só de Deus conhecido» (Gaudium et spes, n.º 22).

Assim, fica claro que a graça de Deus – que recebemos sempre «por Cristo Nosso Senhor» – e que acompanha a vida de cada um de nós, cristãos, está sempre presente como oferta também na vida de todas as outras pessoas, mesmo os crentes de outras religiões ou os não-crentes. Não admira que em outras religiões se encontrem experiências maravilhosas da presença de Deus!

O centro de todos os trabalhos dos missionários e missionárias está aqui mesmo: através do anúncio do Evangelho, ajudamos as pessoas a descobrir essa graça que as acompanha desde sempre, e a conhecer Aquele que nos abriu essa possibilidade de viver com Deus cada dia da nossa vida, Jesus Cristo.

 

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Julho-Agosto 2019 - nº 693
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