Opinião
19 junho 2019

Rainha Cândace

Tempo de leitura: 5 min
As mulheres tiveram papel próprio nas revoltas do Sudão e da Argélia.
José Vieira
Missionário Comboniano
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A imagem tornou-se um ícone viral do levantamento popular sudanês que derrubou o ditador Omar al-Bashir em quatro meses de protestos de rua: uma mulher jovem e esbelta, coberta no toab branco, o manto-véu comprido das sudanesas, com grandes brincos dourados, em cima do tejadilho de um carro, de dedo em riste e em diálogo rapeiro com a multidão que à sua volta canta «Revolução, revolução» numa praça de Cartum. Dezenas de outras mulheres gravam o momento de telemóvel em punho.

Chamaram-lhe a nova rainha Cândace. O livro bíblico dos Actos dos Apóstolos descreve Cândace como rainha etíope. Mas é provável que fosse uma rainha guerreira de Méroe, reino núbio antigo que ficava no Sudão de hoje. Aliás, «etíope» em grego significa «rosto (ou olho) queimado», um tom de pele mais do que um país.

A rainha Cândace do levantamento sudanês tem nome: Alaa Salah, 22 anos, estudante de Engenharia e Arquitectura em Cartum. Define-se no Twitter como «mulher sudanesa, líder das raparigas novas do Sudão», «a voz e o rosto da luta da mulher sudanesa». Nunca esperou que a sua foto corresse mundo, mas está contente «porque o mundo viu que há uma revolução no Sudão». Diz-se uma entre um milhão de manifestantes.

«Dois terços dos manifestantes no Sudão são mulheres. Mulheres são metade da sociedade. Não podemos ter uma revolução sem mulheres. Não podemos ter democracia sem mulheres. Acreditámos que éramos capazes, e fizemo-lo», escreve noutro tuíte.

Alaa é o ícone mais recente da participação feminina nos levantamentos da História. A Wikipedia fez uma lista de meia centena de mulheres que encabeçaram revoluções das quais uma dúzia é africana: desde 280 antes de Cristo, quando a princesa Quilónis tomou parte activa durante o cerco a Esparta, até Aya Virginie Touré, a pacifista que organizou 45 mil mulheres contra Laurent Gbagbo, o presidente costa-marfinense que não queria abandonar o poder apesar de perder as eleições de 2010.

As mulheres africanas são a espinha dorsal da vida e da economia no continente e estão a mudar a sociedade, a cultura e a política. No fundo, estão a reclamar o poder que lhes foi tirado. Os anciãos gujis, do Sul da Etiópia, contaram-me, invocando a lenda das origens, que no princípio eram governados por mulheres, uma memória partilhada por outros povos.

A foto viral de Alaa é uma afirmação enorme das mulheres num país que vive o Islão radical. Junta-se a uma longa série de imagens poderosas recentes que documentam a força da mulher na política africana: a mulher do sutiã azul que foi despida e brutalmente agredida pela polícia no Cairo (Egipto) durante a Primavera Árabe de 2011; as idosas acholis ugandesas que se despiram em 2015 para protegerem a terra ancestral da cobiça do Governo; as mulheres etíopes que raparam o cabelo, solidárias com os presos políticos oromos em 2016; a adolescente sul-africana que usou um penteado afro para denunciar o racismo nos códigos de traje impostos pelas escolas, no mesmo ano; e a bailarina Melissa Ziad, que, com o «protesto poético», simboliza a revolta popular argelina.

As mulheres estão a reclamar o lugar de direito que têm na narrativa histórica dos povos africanos contada em demasia no masculino.

 

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