Opinião
30 março 2023

O desejo

Tempo de leitura: 4 min
Jesus propõe um percurso positivo, animado pelo desejo do bem melhor que Deus nos ajuda a construir.
P. Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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(© 123RF)

 

Entre as palavras-chave da vida cristã, encontramos o «desejo». É uma palavra que tem «má fama» em muitos ambientes religiosos, mas é uma das dinâmicas fundamentais da vida e da amizade. Desejo é o que nos faz querer crescer, ser mais, saborear o melhor da vida. E é o desejo que nos lança na busca das realidades mais elevadas; em última análise, é o desejo que nos leva a procurar aquela alegria plena que só em Deus encontramos.

Desejo, como muitas das nossas palavras, vem da língua latina, de-siderare. Siderare tem que ver com «contemplar os astros, as estrelas, o espaço sideral», olhar para as alturas. O «de» pode indicar privação, mas também pode significar «acerca de», o ponto em que nos focamos. Nos antigos estudos de Teologia, falava-se no tratado de gratia – sobre a graça de Deus. Neste sentido, o desejo (de-siderare) será o que nos leva a «ver as estrelas», a focar-nos sempre no mais elevado, no melhor, naquilo que nos traz mais satisfação, alegria, gozo. O desejo abre-nos ao que é bom na vida, leva-nos a buscar a beleza. É bem triste a vida de quem já não deseja nada, quem deixou de acreditar que as coisas podem melhorar, que as pessoas gostam de amar e ser amadas. Há quem viva num desespero silencioso, sem gosto na vida, convencido de que tudo corre mal, e só pode piorar.

Viver como cristãos estimula em nós a esperança de que o bem é sempre possível porque Deus está presente com a sua força, o seu Reino, e pouco a pouco o mal vai ser vencido e as pessoas podem melhorar. A nossa fé dirige a capacidade de desejar na direcção do bem e da verdade que Jesus mostra, o amor de Deus presente e activo. Uma proposta cristã que pense só em evitar e combater o mal fica a meio caminho; o que Jesus propõe é um percurso positivo, animado pelo desejo do bem melhor que Deus nos ajuda a construir. Quando São Francisco de Assis se converteu decidindo abandonar a vida de luxo e divertimento que seguira até então, ele fala assim da sua nova vida com Deus: «Eis o que eu quero, o que eu desejo de todo o meu coração.» E Maximiliano Kolbe, o santo que deu a vida pelo seu companheiro de prisão no campo de concentração nazi, costumava dizer aos seus irmãos franciscanos: «Desejar, sim, mas desejar sem limite!»

O Cântico dos Cânticos é talvez o livro da Bíblia que diz com mais clareza que o encontro entre Deus e a Humanidade é um movimento de desejo, parecido com o desejo mútuo que existe entre os apaixonados: Deus que apaixonadamente busca oferecer-se à Humanidade para que encontre nele a plenitude da felicidade. Também os Evangelhos abundam em cenários de desejo. Basta pensar no encontro de Jesus com a samaritana, junto ao poço de Jacob (João 4): os dois desejam água para saciar a sede, mas todo o desejo humano se orienta para o infinito e, na conversa entre os dois, a samaritana acaba por saciar o desejo do seu coração com a verdade profunda de si mesma «Ele disse-me tudo!», e Jesus promete uma «Água Viva» – o Espírito Santo – que já sacia a Sua própria existência e pode saciar também os desejos e anseios mais profundos da vida da samaritana.

Seria interessante procurar nos salmos as muitas expressões de desejo que aí se encontram; ou verificar até onde Jesus chega no seu desejo de oferecer a todos a riqueza que enche e sacia o Seu próprio coração.    

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