Opinião
16 março 2023

Que papel têm os insectos na nossa sobrevivência espiritual?

Tempo de leitura: 5 min
Nós, e todos os seres do universo, sendo criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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(© Wikimedia Creative Commons)

São poucos os que gostam de insectos. Pisamos todo o tipo de insectos que nos repugnam, ou enchemo-los de gotículas de licores fatais para deixarem de nos incomodar, morrendo. Mas não deixa de ser curioso que o Serviço Florestal Americano tenha reconhecido que – «Sem os polinizadores, a raça humana e todos os ecossistemas da Terra não poderiam sobreviver.» – Cada vez que matas um insecto, caminhas para o suicídio e genocídio.

O entomólogo E. O. Wilson dizia que – «As formigas são mais parecidas com seres humanos do que qualquer outro animal que eu conheço. Elas formam sociedades complexas, constroem cidades e estradas, criam fazendas e mantêm escravos, lutam guerras e praticam a agricultura.» – Uma cidade movimentada vista a partir de cima faz-nos semelhantes às formigas. Mas será que a falta de remorso ao espezinhar uma formiga poderá estar relacionada com o mesmo acto de algumas pessoas relativamente a outras?

As formigas podem surpreender-nos. Um grupo de investigadores do Japão observaram que os exércitos de formigas possuem um comportamento altruísta capaz de sacrificar o próprio bem em benefício das outras formigas. Juntas, as formigas são capazes de construir pontes com os seus próprios corpos ao longo do caminho entre o alimento e o ninho. É comum que um humano ofereça o próprio corpo para construir pontes?

O declínio dos insectos no planeta é, actualmente, assustador. Tudo aquilo que poderíamos aprender com os insectos pode, um dia, desaparecer. Seres pequenos demais para ouvirmos o seu grito, mas também esse faz parte do grito da terra que o papa Francisco nos convida a aprender a escutar para reconhecermos que no mundo natural também existe vida que sofre a morte induzida pelos nossos estilos de vida. Na Encíclica Laudato Si’ (89), o papa diz – «As criaturas deste mundo não podem ser consideradas um bem sem dono: «Todas são tuas, ó Senhor, que amas a vida» (Sab 11, 26). Isto gera a convicção de que nós e todos os seres do universo, sendo criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde. Quero lembrar que “Deus uniu-nos tão estreitamente ao mundo que nos rodeia, que a desertificação do solo é como uma doença para cada um, e podemos lamentar a extinção de uma espécie como se fosse uma mutilação”. Logo, apesar de agora começarmos a tomar mais consciência desta ligação forte entre os insectos e a sobrevivência humana, há já oito anos (!?) que o papa nos convidava a um sentir diferente de todos sermos parte da família da criação. Mudou alguma coisa desde então? Talvez ainda não. Há ainda muito caminho a percorrer.

Alguns poderiam interpretar o desenvolvimento da nossa sensibilidade à família da criação como colocar todos os seres vivos ao mesmo nível de consciência e lugar no interior da realidade, mas isso não corresponde à beleza da diversidade existente no mundo natural. Outros poderiam pensar que o caminho consiste na divinização da terra, de tal modo que perdemos o sentido da nossa vocação no cosmos. Vistos de cima podemos assemelhar-nos a formigas, mas não somos formigas. E a elevação da formiga a Deus por meio do nosso papel como sacerdotes da criação, dizia o Metropolita John Zizioulas, possui os seus próprios traços, diferentes dos traços de elevação de outras espécies e, sobretudo, de nós próprios.

Se a linguagem do amor pode levar-nos às pontes mais criativamente incríveis entre pessoas de convicções diferentes, não teremos a imaginação de criar uma linguagem que chega ao ponto de criar uma ponte com os mais esquecidos dos seres, os insectos, tão numerosos como as estrelas, e trazê-los, de certa forma, para o nosso diálogo com o mundo? A sua presença discreta, aparentemente, é essencial para a nossa sobrevivência, mas enquanto a ciência se preocupa com o seu aspecto físico, a dimensão espiritual que a Laudato Si´ suscita em nós, convida-nos a procurar a ligação entre a sobrevivência dos insectos e a nossa sobrevivência espiritual. Por exemplo, pelos sinais que dá presentes nos comportamentos naturais, ensinando-nos como a relacionalidade faz parte do centro nuclear da existência do mundo.

 

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