Opinião
19 abril 2023

A criptomoeda que aquece o clima

Tempo de leitura: 5 min
Contribuir para a crise climática com computadores a correr algoritmos à procura de números parece-me inacreditável e uma coisa do outro mundo. Porém, essa realidade existe.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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Sabiam que nos Estados Unidos, as dezenas de "quintas" que minam a criptomoeda Bitcoin consomem a mesma energia de dezenas de milhões de casas de famílias? E como não existe energia renovável suficiente para alimentar as ditas "quintas", uma boa parte provém de combustíveis fósseis. Contribuir para a crise climática com computadores a correr algoritmos à procura de números parece-me inacreditável e uma coisa do outro mundo. Porém, essa realidade existe.

Uma criptomoeda é uma moeda digital, ou seja, algo a que damos um valor económico, cujo suporte físico não é guardado sob a forma de notas ou moedas na nossa carteira, mas em "carteiras digitais" acessíveis através de qualquer dispositivo electrónico com acesso à internet. Bitcoin é um tipo de criptomoeda como o Euro é um tipo de moeda física. A forma de identificar se o código gerado por computador durante a "minagem digital" é um Bitcoin, implica que se deve encaixar perfeitamente na blockchain ou cadeia de blocos, e dada a raridade de obter um código válido, o valor de um Bitcoin pode ascender às dezenas de milhares de Euros, sendo o preço muito volátil (em 2021 valia mais de 60 000 dólares e, hoje, em 2023, vale aproximadamente 28 000 dólares). Porém, minar um Bitcoin possui um custo energético e, num recente artigo longo do The New York Times, a análise revela os vários esquemas de aproveitamento de programas associados ao preço da energia que produzem elevados retornos financeiros às empresas de “menagem”, sem nada produzir na realidade.

A ideia da moeda digital foi a tentativa de eliminar os bancos e governos como intermediários nas transacções financeiras entre as pessoas ou grupos de pessoas (pares), criando um sistema mais estável e justo por ser independente dos poderes económicos e tempestades políticas. Qualquer pessoa pode ter o seu computador a minar criptomoedas para as usar em transacções económicas com quem as aceita. O preço que paga é o da electricidade que consome porque o computador é quem faz todo o trabalho. A ideia é interessante e a intenção tem valor, mas como em qualquer coisa que desperta a atenção dos grandes grupos económicos, os seus recursos permitem-lhes monetizar qualquer tipo de moeda, incluindo esta. Pois, se cada código que resulta num Bitcoin é único, quem tem 30 000 computadores 24 horas por dia, sete dias da semana durante todo o ano, tem mais possibilidade de encontrar criptomoeda do que qualquer pessoa. Além de o preço pago pela electricidade não ser, também, o mesmo.

Na prática, o sistema criado, anonimamente, por uma pessoa ou grupo de pessoas sob o pseudónimo de Satoshi Nakamoto, que pretendia iniciar uma onda de justiça financeira pelo mundo, acaba por ser subvertido, juntamente com um preço ambiental enorme de contribuir para a emissão de dezenas de milhões de toneladas de CO2, anualmente, para a atmosfera. Será possível sentir a aberração de ver o efeito global prejudicial à vida das pessoas por causa da procura desenfreada por dígitos num computador? E o mais paralisante é saber que pouco ou nada podemos fazer por isso.

Na Laudato Si', o Papa Francisco reafirma para a vida espiritual a intuição do explorador do século XIX Alexander von Humboldt de que tudo está relacionado com tudo. E dado que os seres humanos vivem cada vez mais em ambientes digitais, o consumo energético a estes associado leva a humanidade a entrar numa bola de neve que cresce exponencialmente enquanto desliza pela encosta da montanha. E a questão que poucos se colocam enquanto se entretêm com o que a vida digital oferece é: onde iremos parar?

Devemos reconhecer o valor de nos esquecermos da carteira em casa e conseguir pagar o pão com MBWay usando o telemóvel. Ou reconhecer como poupamos muitas emissões de CO2 ao reduzir substancialmente as viagens de avião para reuniões de trabalho, substituindo-as por videochamadas. Ou ainda sentir o valor de fazermos parte de uma grande família humana por participarmos na vida daqueles que vivem longe algumas dificuldades, como desastres naturais, e poder agir oferecendo os recursos que temos em tempo-real para suprir as suas necessidades através das transacções digitais. Mas nenhum destes benefícios deveria adormecer a consciência e aceitar o que a digitalização nos oferece sem a questionar.

Serão estes momentos em que vemos partes do mundo colapsar que a oração e a união com Deus se devem reforçar. Pois, só Ele pode trabalhar a nossa consciência para nos mantermos despertos e atentos, pedindo-Lhe que nos inspire a agir para oferecer uma nova onda de criptovalores que supere qualquer criptomoeda.

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Artigos
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Maio 2024 - nº 746
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