Opinião
09 maio 2023

Memória

Tempo de leitura: 4 min
Fazendo memória, Maria e os seus familiares sabem que estão a participar na obra de Deus, e comprometem-se, cheios de confiança em Deus, que é sempre fiel.
P. Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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(© 123RF)

 

Para Jesus, como para o povo de Israel em cuja fé ele cresceu, recordar, fazer memória, era uma palavra-chave da sua maneira de acreditar. Deus era sempre o «Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob». Recordar o que Deus tinha realizado no passado, e as maneiras concretas como tinha caminhado com o seu povo, era parte essencial da fé que os pais de Jesus lhe ensinaram quando era pequeno, e que ele vivia com fervor, mais tarde, junto com os seus discípulos. Nos momentos de incerteza e nos momentos de crise, ao longo da sua história, o primeiro convite que os profetas faziam ao povo era «Recorda Israel!»

No tempo da saída do Egipto e da viagem através do deserto em direcção à Terra Prometida, os três líderes da caminhada, Moisés, Aarão e Miriam, não se cansavam de encorajar o povo lembrando como, no passado, Deus tinha chamado Abraão e Sara e tinha caminhado com a sua família em direcção à terra «que lhes havia de mostrar», como acompanhou a família de Isaac e a do seu filho Jacob. Deus tinha sempre dado claros sinais de que era um Deus fiel. Nos anos do deserto, o povo reavivava essas memórias do passado para terem a certeza de que esse Deus continuava a caminhar com eles, e nunca os abandonaria. Recordando o que Deus realizara no passado, o povo conseguia entender o presente com mais clareza e avançar para o futuro com confiança. Assim, a memória – «Recorda, Israel!» – torna-se “memorial”, realidade celebrada no presente para iluminar o caminho e dar forças para avançar na direcção que Deus quer.

Maria de Nazaré, figura que nos é particularmente querida neste mês de Maio, segue precisamente esse mesmo movimento quando Deus intervém na sua vida de maneira completamente nova e a convida a ser a mãe de Jesus, o Messias. As palavras que ela troca com a sua prima Isabel, ao chegar a casa de Zacarias, são um lindo exemplo do que significa «recordar», fazer «memorial». A nova presença de Deus, João Baptista, que Isabel ia dar à luz, e Jesus, que crescia no ventre de Maria, são surpresas de Deus que deixam as duas mulheres, e os respectivos maridos, Zacarias e José, maravilhados e cheios de perguntas sobre o presente que vivem e sobre o caminho futuro que se sentem chamadas a percorrer. Como compreender o que Deus está a fazer e como avançar na fidelidade à Sua vontade? As respostas encontram-se no «Recorda Israel»: lembra como Deus agiu no passado e compreenderás o que Ele está a realizar agora na tua vida. É isso mesmo que Maria faz: «A misericórdia de Deus dura de geração em geração, Ele derrubou os poderosos e exaltou os humildes, encheu de bens os famintos, socorreu Israel seu servo, lembrado da sua misericórdia. Deus tem sempre cumprido as suas promessas em favor de Abraão e da sua descendência…» (cf. Lc 1,50 55).

O memorial de Maria – oração de louvor recordando os grandes feitos de Deus – leva os dois casais, José-Maria, Zacarias-Isabel, a perceber como o que está a acontecer nas suas famílias é acção do Deus de Abraão de Isaac e Jacob.  Com essa certeza, eles assumem a sua situação presente como obra de Deus e põem as suas vidas ao serviço do que Deus quer realizar por meio de João Baptista e de Jesus. Recordando, fazendo memória, Maria e os seus familiares sabem que estão a participar na obra de Deus, e comprometem-se, cheios de confiança em Deus, que é sempre fiel.   

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