Opinião
16 maio 2023

A falibilidade da nossa intuição na Era da Inteligência Artificial

Tempo de leitura: 5 min
A intuição humana é uma característica da nossa interioridade que nos permite discernir e sensibilizar para a Vontade de Deus relativa a qualquer discernimento.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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«Nenhum computador 9000 fez alguma vez um erro ou distorceu informação. Nós somos todos, por qualquer definição prática das palavras, infalíveis e incapazes de erro.» — Esta é a impressão fantasiosa de HAL 9000 na obra de ficção científica de Arthur C. Clarke "2001: Uma Odisseia no Espaço". E ao pronunciá-la, a Inteligência Artificial (IA) demonstra estar longe de ser humana. Pois, parte do génio humano provém da nossa falibilidade, mas o ChatGPT sabe disso.

O ChatGPT gera texto com base na probabilidade de se obter a palavra seguinte para um determinado conjunto de palavras por nós fornecidas. Porém, adiciona alguma aleatoriedade na escolha porque nem sempre a palavra seguinte mais provável é a que um humano escolheria e daí o efeito final assemelhar-se a uma linguagem natural. Ou seja, consideramos a linguagem como natural por ser falível e imprevisível. As ferramentas de IA funcionam a partir do mapeamento daquilo que escrevemos até hoje, mas até que ponto irão influenciar o que escreveremos no futuro?

Cada pessoa é muito limitada na capacidade de processar informação. Por isso, quem tenta fazê-lo, ou demora muito tempo, ou fá-lo superficialmente. Pelo contrário, as Inteligências Artificiais possuem uma capacidade de processar quantidades incríveis de informação, identificar padrões invisíveis ao olhar humano e poderão mesmo gerar novas ideias e intelecções. Em "Blink", o jornalista Malcolm Galdwell explora como apesar da falibilidade da intuição humana, essa é uma ferramenta poderosa quando temos de decidir alguma coisa. O alerta que tem surgido um pouco por todo o mundo é se iremos cada vez mais depender dos algoritmos através de ferramentas como o ChatGPT, em vez de continuarmos a desenvolver a nossa intuição.

A intuição Inaciana é a «capacidade interna de percepcionar os movimentos dos dois espíritos dentro de mim.», assim define o jesuíta Mark Thibodeaux no seu livro "God's Voice Within". Um dos espíritos é o falso que consiste num "arrastar" da nossa interioridade para longe do desígnio de Deus, afastando-nos da fé, esperança e caridade, ao mesmo tempo que nos dá a impressão de ser o melhor para nós. O outro é o espírito da verdade que nos impulsiona interiormente na direcção do desígnio de Deus e ao encontro da fé, esperança e caridade envolvidas nas realidades mais profundas.

A intuição humana é uma característica da nossa interioridade que nos permite discernir e sensibilizar para a Vontade de Deus relativa a qualquer discernimento. A intuição humana precisa de tempo para aprender a identificar as ligações entre os pensamentos, as emoções e as acções. É um caminho pouco imediato, falível, mas necessário para o crescimento pessoal de cada pessoa e que nos humaniza. Uma das formas de materializar o fruto da intuição humana é a escrita criativa acessível a todo o ser humano que aprendeu a escrever.

O fascínio que existe pelo ChatGPT tem levado muitas pessoas a confiar na escrita irrepetível (porque estatística) que produz, fazendo-a sua, sob o argumento de poupar tempo para se focar no que realmente interessa. De facto, essa funcionalidade é uma vantagem se quisermos perder menos tempo, por exemplo, com respostas a emails, mas o impacto dessas "facilidades" sobre o acto de escrever em si é ainda incerto.

A falibilidade da intuição humana é o gérmen da poesia que nos leva a voos interiores únicos porque nenhum ser humano é, interiormente, igual aos outros. O que escrevemos proveniente da nossa interioridade é um mapeamento do percurso que a nossa intuição fez pelo mar de ideias e pensamentos que passam pela nossa mente à procura daquela intuição espiritual que nos permite escutar a Voz de Deus e seguí-la, como via segura de discernimento. Algo que poderíamos associar a uma IA que nasceria dentro de nós. Isto é, uma Intuição Amplificada (IA) que usa a nossa falibilidade para evoluirmos no sentido mais profundo do termo.

 

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