
Penitência – começar de novo
Miguel entrou na igreja com a mochila ainda às costas. Vinha direto do treino e nem teve tempo de passar por casa. A mãe esperava-o à porta.
— “Cinco minutos, não custa nada.”
— “Mãe, isto não muda nada…” — respondeu, já a entrar.
Sentou-se no fundo, como sempre. A igreja estava meio cheia de gente cansada: trabalhadores, idosos, estudantes. O silêncio não era perfeito, mas era diferente do barulho da escola.
Quando chegou a sua vez, aproximou-se com alguma vergonha. O padre olhou-o nos olhos com calma e disse, ao traçar-lhe a cruz de cinzas: — “Converte-te e acredita no Evangelho.” A frase ficou suspensa no ar.
Na escola, os colegas riram.
— “Miguel, tens a testa suja!”
— “É moda nova?”
Ele limpou com a manga do casaco, meio irritado. A marca esbateu-se, mas não desapareceu.
O dia correu como sempre: aulas, piadas, distrações. Mas algo estava diferente. Era como se aquela frase lhe tivesse entrado para dentro.
À noite, no quarto, ligou o telemóvel e começou a fazer scroll. Vídeos, memes, mensagens. Parou de repente. Desligou o ecrã. O silêncio caiu como um peso.
Foi ao espelho. A marca ainda lá estava, ténue. Olhou para si com atenção. Lembrou-se da discussão com o pai na noite anterior. Da forma como tratara mal um colega mais fraco. Da sensação de andar sempre a representar alguém que não era bem ele.
Sentou-se no chão, encostado à cama.
— “E se eu mudasse alguma coisa?” — disse em voz baixa.
Não sabia como. Nem por onde começar. Mas percebeu que penitência não era sentir-se culpado. Era ter coragem de recomeçar.
Nessa noite, antes de dormir, fez uma oração simples: — “Deus… ajuda-me a ser melhor do que ontem.”
A marca desapareceu ao lavar o rosto. Mas o início tinha ficado.
