Ciência e tecnologia
20 setembro 2021

A paz também é verde

Tempo de leitura: 3 min
Começou por plantar árvores no jardim da sua casa e acabou por criar o Movimento Cintura Verde, uma organização de mulheres quenianas que fazem o Quénia mais verde e conseguem lenha para cozinhar.
Redação
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Wangari Maathai nasceu em Nyere, em 1940, no seio de uma família kikuyu, que é a etnia maioritária do Quénia. Frequentou as aulas num centro católico. Concluiu o ensino básico, secundário e superior de forma brilhante e quis prosseguir os estudos. Aos 20 anos conseguiu uma bolsa para a universidade católica Santa Escolástica, no Arkansas, nos Estados Unidos. Ali conheceu a Ir. Kathleen, com quem aprendeu uma série de valores religiosos e humanos, que jamais deixarão de ser fundamentais na sua vida.

Licenciou-se em Biologia, obteve o mestrado em Ciências e um doutoramento em Anatomia. Regressada ao Quénia, exerceu como professora de Anatomia, Veterinária e Zoologia.

Em 1976, fundou o Movimento Cintura Verde, com o objectivo de defender o meio ambiente do seu país. Animava as mulheres quenianas a imitá-la, plantando árvores nos jardins e átrios da casa, nos parques das escolas e nas praças das igrejas. Dizia-lhes: «Quando era criança, impressionava-me uma enorme figueira que havia junto da casa dos meus pais. A minha mãe dizia que não podíamos cortá-la. Perto da árvore havia um regato, onde a minha mãe ia buscar água. No dia em que cortaram a figueira, o regato secou. Os meus filhos nunca verão a enorme figueira. Não conhecerão o ribeiro. Sempre que visito o pequeno vale da minha infância, sinto que a tragédia se abate sobre a terra que piso. Vejo ribanceiras que me falam da erosão dos solos. Nos rostos dos habitantes estampa-se a fome. A lenha é escassa porque já cortaram todas as árvores. É por isso que luto contra o abate indiscriminado dos bosques, a exploração dos solos, a desertificação, a contaminação da água e, também, contra a pobreza, a desnutrição e a exploração da mulher, condenada a caminhar horas à procura de paus para cozinhar.»

O movimento que Maathai criou não parou de crescer. Outros países africanos, como aTanzânia, Uganda, Maláui, Lesoto e Etiópia, aplicaram a iniciativa com bastante êxito.

Todavia, o caminho não foi fácil. Wangari foi insultada no Parlamento do seu país e na rua. A polícia vigiou a sua casa e ela esteve presa mais de uma dúzia de vezes.

A imagem de Wangari Maathai é a de uma mulher com botins, levando um regador, e rodeada de plantas prontas para serem transplantadas. O êxito dedica-o às mulheres africanas. São elas que saem valorizadas da acção que realizam em favor do ambiente, da dignidade humana, da democracia e, em suma, da paz. Também lembra os seus filhos, que a viram lutar desde que ainda gatinhavam, que a visitaram na prisão e que a acompanham no meio das árvores plantadas.

Em 2004, foi-lhe concedido o Prémio Nobel da Paz. Uma das primeiras ações após receber prémio foi plantar uma acácia rosa na encosta do monte Quénia, naquele lugar que para ela, e para os seus pais, foi fonte de inspiração.

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Ciência
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Maio 2022 - nº 607
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