Sala de convívio
01 novembro 2019

Pão por Deus

Tempo de leitura: 4 min
No Dia de Todos os Santos, 1 de novembro, as crianças saem às ruas em pequenos grupos e pedem «Pão por Deus» de porta em porta.
Tiago Ferreira
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      Esta é uma tradição arraigada nas zonas mais rurais de Portugal, em que as crianças vão muito bem vestidas, levam uma sacola bonita para receber as ofertas, e são bem-comportadas.

 Na origem da tradição do Pão por Deus está um ritual dos celtas, povo da Escandinávia que habitou no que é hoje Portugal. Esta celebração ocorria no outono, quando a Natureza entrava em declínio, e consistia em oferendas aos mortos.

Com a cristianização do continente europeu, muitas festas pagãs foram aos poucos tomando formas cristãs. Quando a Igreja Católica promoveu o culto dos mortos, lembrando que «mortos com Cristo, com Cristo ressuscitamos para a vida eterna» (ver Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios 15, 20-22), surgiu a tradição de reservar um lugar à mesa para os antepassados e comida para eles.

Criou-se também o costume de deixar à porta da casa o primeiro pão da fornada desta altura, tapado por um pano. Era para honrar os mortos, mas, igualmente, para que os pobres que por ali passassem se alimentassem. Deste modo, o pão para os fiéis defuntos começou a ter a vertente de partilha com quem necessitava.

O terremoto de 1755

No dia 1 de novembro de 1755, Portugal viveu a maior catástrofe da sua História, o terremoto que destruiu parte da cidade de Lisboa e afetou outras áreas do País.

Um ano depois, por causa da fome e miséria que ainda duravam, os lisboetas aproveitaram a tradição do pão para os fiéis defuntos para realizar um peditório. As pessoas percorreram a cidade, bateram às portas e pediram que lhes fosse dada qualquer esmola, mesmo que fosse apenas pão. Elas pediam «pão por Deus».

Os relatos históricos contam que, no 1.0 de novembro dos anos seguintes, incrementou-se o costume do Pão por Deus, como celebração dos que tinham sobrevivido e agradecimento aos que tinham ajudado.

Festa das crianças

No século xx, a tradição ganha a forma de festa das crianças. No 1.0 de novembro, elas vão de porta em porta a pedir o pão por Deus. Entoam rimas ou cantigas e, tradicionalmente, recebem tremoços, bolinhos de frutos secos e erva-doce, romãs, pão, e, mais recentemente, rebuçados, chocolates e outras guloseimas.

Há variações ao longo do País: na Estremadura é conhecido por «bolinho»; nos Açores, dão-se caspiadas, que lembram uma caveira humana.

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Sabes
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EDIÇÃO
Novembro 2019 - nº 579
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