
Escrito por uma criança atenta e corajosa
E há crianças que não podem ir à escola, nem visitar os avós, nem brincar no parque com os amigos. Mas, mesmo no meio desta confusão molhada, há coisas importantes que todos nós — pequenos e grandes — podemos fazer.
Quando há cheias, as regras mudam um bocadinho:
* Nunca sair sozinho para ver a água de perto. Parece interessante, mas é perigoso.
* Não tentar atravessar ruas alagadas, mesmo que a água pareça baixinha. A corrente pode ser mais forte do que parece.
* Ouvir sempre os adultos responsáveis: pais, avós, vizinhos, professores, bombeiros.
* Guardar lanternas e pilhas num sítio fácil de encontrar, caso falte a luz.
* Ter um casaco impermeável sempre à mão. A chuva não avisa quando volta.
Os mais pequenos ficam assustados com barulhos fortes, sirenes e mudanças de rotina. Tu podes ser o herói deles:
* Explica-lhes com calma o que está a acontecer, sem exageros.
* Faz jogos simples dentro de casa: adivinhas, desenhos, histórias inventadas.
* Ajuda-os a arrumar a mochila com o que precisam, caso a família tenha de sair rapidamente.
* Mostra-lhes que, mesmo quando tudo parece confuso, vocês continuam juntos.
Os avós preocupam-se muito connosco, mas às vezes esquecem-se de cuidar deles próprios. Aqui entram os teus superpoderes:
* Telefona ou envia uma mensagem quando houver rede. Só para dizer: “Está tudo bem por aqui.”
* Pergunta se precisam de algo: medicamentos, água, mantas.
* Se estiverem perto, ajuda a pôr tudo num sítio seguro, longe da água.
* E, acima de tudo, dá-lhes tranquilidade. Os avós gostam de saber que os netos são responsáveis.
* Mesmo sem poderes mágicos, podes fazer muito:
* Se a tua família tiver roupas, brinquedos ou mantas que já não usa, pergunta se podem ser doados.
* Faz desenhos ou pequenas mensagens de força para crianças que tiveram de sair de casa.
* Ajuda a carregar sacos leves ou a organizar coisas em centros de apoio, sempre acompanhado por um adulto.
* Sorri. Às vezes, um sorriso é mais quente do que uma manta.
Ficar fechado entre quatro paredes pode parecer aborrecido, mas há maneiras de transformar o dia:
* Criar um “acampamento” na sala com almofadas e lanternas.
* Escrever uma história sobre um herói que vence tempestades.
* Fazer uma lista de coisas boas para fazer quando o sol voltar.
* Ajudar nas tarefas: dobrar roupa, arrumar brinquedos, separar reciclagem.
Depois da tempestade, vem sempre a arrumação — e também aí podes ser útil:
* Ajudar a limpar o que for seguro limpar.
* Perguntar aos vizinhos se precisam de ajuda para pequenas tarefas.
* Agradecer aos bombeiros, às equipas de limpeza e a todos os que trabalharam para manter as pessoas seguras.
Mesmo quando o mundo parece virado do avesso e a água sobe mais depressa do que conseguimos pensar, há algo que nunca se perde: a capacidade de cuidarmos uns dos outros.
Ser criança não significa ser pequeno. Significa ser atento, solidário, curioso e capaz de fazer a diferença — mesmo que seja com gestos simples.
. E quando o sol voltar, vais perceber que, graças a ti, o dia ficou um bocadinho mais luminoso para alguém.
Cristina Félix, jornalista
