Actualidades
10 setembro 2019

O clamor da terra e dos pobres

Tempo de leitura: 5 min
Comentário do padre Dario Bossi sobre o segundo capítulo do documento de trabalho do Sínodo sobre a Amazónia
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O padre Dario Bossi, missionário comboniano italiano, explica em vídeo o documento de trabalho que guiará o Sínodo para a Amazónia.

Neste vídeo, o sacerdote fala sobre o segundo capítulo do documento, que trata do tema “O clamor da terra e dos pobres”.

O missionário acompanhará de perto os trabalhos do próximo Sínodo para a Amazónia, que se realizará de 6 a 27 de outubro de 2019, no Vaticano.

«Nossa aldeia estava na região de Tucuruí. A empresa queria negociar connosco, para que a gente saísse logo de nossa terra. A hidroelétrica não podia esperar. Também o Estado fazia pressão.

Nosso cacique Payaré foi o último que deixou a terra, quando já estava sendo inundada.

Nos trouxeram aqui, a mais de 200 km de distância, numa terra diferente.

Logo, nossa nova terra foi atravessada pelos trilhos da Vale, que exporta dinheiro. Em seguida, pelo linhão de energia.

E agora, ameaçam construir uma nova hidroelétrica, em Marabá. Não vamos deixar que de novo nossa terra Mãe Maria seja alagada!»

São as palavras do povo Akrãtikatege, que está a ser vítima por quatro vezes seguidas do tal de “desenvolvimento”.

No país há muitas destas “zonas de sacrifício”: territórios, e populações, que precisam se sacrificar para que avance o chamado progresso.

O segundo capítulo do Instrumento de Trabalho para o Sínodo da Amazónia trata exatamente do “clamor da terra e dos pobres”.

Diz que estão a acontecer “atentados conta a vida no território amazónico”.

Imaginem: ao longo de sete meses, foram diretamente escutadas mais de 80 mil pessoas, nas comunidades rurais, urbanas, fluviais e da floresta nos nove países da pan-amazónia.

O clamor das pessoas e da Mãe Terra ressoa muito forte no coração da Igreja, quando ela se põe à escuta: a destruição extrativista, as ameaças aos povos indígenas em isolamento voluntário, a migração, os desafios da urbanização, da saúde e educação integral, a corrupção, a situação das famílias...

O documento aprofunda cada um destes gritos. Analisa as causas, oferece sugestões para cada uma destas contradições.

Talvez o ponto mais forte deste capítulo seja o chamado à Conversão Ecológica.

Posto que existe o pecado pessoal, social e estrutural, se diz que a Igreja deve ao mesmo tempo enfrentá-lo... e reconhecê-lo dentro de si mesma.

A raiz deste pecado é desvincular-se da natureza.

O coração da intuição indígena é que não é a terra que nos pertence, mas nós que pertencemos a ela!

Se rompe a aliança que Deus havia tecido com cuidado desde a criação, e que é o coração dos primeiros cinco livros da Bíblia.

Se a raiz é esta, quais os frutos?

- o domínio dos territórios (um novo colonialismo)

- o lucro como medida absoluta e ídolo

- a natureza vista só como recurso (utilitarismo, que justifica o saque)

- a perda da mística, do horizonte transcendente

O que fazer?

Às vezes, ao ver situação tão dramática, estamos obcecados na busca de ações que resolvam.

Consideremos, porém, que pensar é tão importante quanto fazer.

A conversão não é primeiramente uma ação, mas uma mudança de postura, de coração, de pensamento...

Neste mês, convido a pensar nos povos indígenas de uma forma diferente.

Não como diferentes que precisamos integrar ao nosso modo de viver.

Não como pobres que precisamos ajudar (toda vez que separamos o índio de sua terra, o transformamos em pobre, porque o capitalismo precisa de pobres para se alimentar e se justificar, diz Eduardo Viveiro de Castro).

Não como resquício do passado, a ser preservado.

Pensar nos povos indígenas como o novo que nossa sociedade em depressão não consegue ainda enxergar.

O novo que nos ensina o valor das relações, a memória dos ancestrais e a preocupação para com as gerações futuras, o discernimento coletivo e a participação, a pertença à Mãe Terra.

Veja aqui o comentário do padre Dario sobre o primeiro capítulo do instrumento de trabalho para o Sínodo sobre a Amazónia: Voz da Amazónia.

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