Actualidades
18 abril 2019

Vida em plenitude

Tempo de leitura: 4 min
A Ressurreição de Jesus inaugura um tempo novo na História.
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O Papa Francisco, com o seu magistério profético, especialmente com a sua encíclica verde Louvado Sejas, tem vindo a reflectir e a fazer propostas orientadas para a acção que transformem a relação da humanidade com a Natureza e levem a estilos de vida mais solidários e ecológicos.

No entanto, ainda é necessário crescer nessa responsabilidade ambiental e continuar a reconfigurar as relações dos cidadãos, organizações e empresas com o planeta. Robert Heilbroner, ao falar da Terra ameaçada, recorria a uma linguagem apocalíptica e sustentava numa obra publicada na década de 1970 que estávamos às portas de um «armagedão ecológico»; John B. Foster e Brett Clark falam de «emergência planetária». Os ambientalistas asseguram que temos no máximo uma geração para realizar uma transformação radical no nosso estilo de vida, nas nossas formas de produção, nos sistemas económicos e nas nossas relações com a Terra. Só desse modo evitaremos um grande ponto de inflexão, após o qual as grandes mudanças no clima da Terra provavelmente estarão além da nossa capacidade de prevenir e serão irreversíveis.

Nesse contexto de crise ambiental e de preparação para a Páscoa, com a certeza de que vivemos para ressuscitar e não para morrer, o Santo Padre retoma o tema ecológico na mensagem para a Quaresma. No texto – intitulado A criação encontra-se em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus (Rm 8 19) –, Francisco lembra que o mistério de salvação é um processo dinâmico que abrange também a História e toda a criação. E, se o filho de Deus «sabe reconhecer e praticar a lei de Deus, a começar pela lei gravada no seu coração e na Natureza, beneficia também a criação, cooperando para a sua redenção».

Francisco recorda que para não continuarmos orientados pela lógica do imediatismo, do consumismo, da exploração da criação (pessoas e meio ambiente) e da intemperança, estamos chamados a realizar um caminho de verdadeira conversão. Uma mudança de vida que fazemos com esperança, sentindo-nos peregrinos e tendo os olhos sempre fixos no Ressuscitado. «Se não estivermos voltados continuamente para a Páscoa, para o horizonte da Ressurreição, é claro que acaba por se impor a lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais.» E, assim, «acolhendo na nossa vida concreta a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, atrairemos também sobre a criação a sua força transformadora».

O Cristianismo, lembra o teólogo Jürgen Moltmann, é escatologia, é esperança, visão e orientação para diante, mas é também, em si mesmo, abertura e transformação do presente. A ressurreição de Jesus, fundamento da esperança cristã, inaugura um tempo novo na História. É, simultaneamente, promessa de futuro e concretização do «novo céu e da nova terra» no aqui e agora da nossa existência. A Ressurreição é, na expressão do «teólogo da esperança», uma revolução na evolução. Permite-nos vislumbrar o futuro, a Vida plena que Deus nos tem preparada, e impele-nos a construir no quotidiano o projecto do Reino de Deus, de modo que a Humanidade e toda a criação tenham «vida e vida em abundância» (cf. João 10,10).

Bernardino Frutuoso, Director da revista Além-Mar

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