Música
03 agosto 2020

Música

Tempo de leitura: 4 min
Aproveite as férias para ouvir grandes músicas. Deixamos duas sugestões.
António Marujo
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Disco1

Na liturgia ortodoxa, o único instrumento permitido é a voz humana. É natural, por isso, que os Balcãs tenham assumido uma tradição musical única, quase de tom misterioso, com as sonoridades das vozes trazidas do folclore para a liturgia, e vice-versa – a tal ponto que o disco que em grande parte revelou esta sonoridade se intitulava As Vozes que Falam com Deus. Na Bulgária, as primeiras conversões ao Cristianismo no século ix levaram à quase imediata tradução dos textos litúrgicos para búlgaro, bem como à adaptação para a música das regiões que hoje constituem o país. A tradição eslava e ortodoxa, bem como a musicalidade vocal das diversas regiões que hoje compõem o país, são as inspirações do Perunika Trio, que vai buscar o seu nome à deusa eslava da chuva e da beleza eterna. Fundindo folclore e música litúrgica, o grupo consegue, neste disco, dar uma imagem da riqueza e diversidade melódica, com as diferentes ornamentações e ondulações típicas da música balcânica. Sejam elas mais divertidas e jocosas (Rano mi e More/Nascer do Sol ou Malo Selo/Pequena Aldeia), mais melancólicas ou mais ternas (como Po Jutva/Colheita, ou Angel i Moma/Anjo e Donzela ou Velichanie Bogorodichno/Adoração da Virgem, por exemplo). Ou falem elas dos ciclos agrários ou da paisagem, das colheitas ou da fecundidade, do amor ou da maternidade, da saudade ou da beleza. Quase sempre celebrando o lado feminino da vida e a mulher.

Título: Bulgarian Voices

Intérpretes: Perunika Trio; dir. Eugenia Georgieva

Edição: ARC Music

vgm@plurimega.com

 

Disco2

Este disco começa com o som do sintetizador como se fossem gotas a cair. Fonte de Mel (Honey Fountain) é o título do tema, que depois evolui para uma meditação onde podemos ver, como fundo, uma caminhada, uma paisagem, um fim de tarde tranquilo. O trompetista Avishai Cohen regressou há seis anos dos Estados Unidos a Israel, juntou-se a mais quatro músicos para fazer a Big Vicious (Uzi Ramirez, na guitarra, Yonatan Albalak também na guitarra e baixo, Aviv Cohen e Ziv Ravitz nas percussões) e oferece-nos um mar de tranquilidade feito disco para nos ajudar a atravessar um Verão que promete ser perturbador. As notas da edição dizem que a peça This Time It’s Different (Desta vez é diferente), poderia servir de mote para o projecto. E, podíamos acrescentar, poderia ser o lema para nos colocar o disco como música de fundo para atravessar este tempo diferente. O disco tem jazz, sim, mas também electrónica, música ambiente e psicadélica, rock, pop e outros sons. Tem, inclusivamente, uma versão da Sonata ao Luar, de Beethoven (de quem em Dezembro próximo se celebram 250 anos do nascimento), trabalhada a partir do trompete, que capta da melodia original a sua força melancólica, mas dando-lhe uma nova energia e jovialidade. O disco consegue, assim, como diz Ziv Ravitz, citado na introdução, uma mistura «profunda, e muito melódica» entre as várias inspirações. Chamada de atenção para um pormenor importante: a bela capa desenhada pelo ilustrador israelita David Polonsky, autor do romance gráfico e documentário animado Valsa com Bashir.

Título: Big Vicious

Intérpretes: Avishai Cohen e Big Vicious

Edição: ECM New Series

discos@dargil.pt

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EDIÇÃO
Setembro 2020 - nº 705
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