Música
13 janeiro 2022

Discos

Tempo de leitura: 3 min
«La Costa de los Mosquitos», de Travis Birds, e « Die Schöpfung – A Criação», da autoria de Joseph Haydn, são as nossas sugestões musicais para este mês.
António Marujo
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Esta é uma bela descoberta: não é jazz, não é flamenco nem pop de baile. É tudo isso e muito mais: estamos diante de uma música de uma funda força interior e que, num instante, se transfigura em salto imparável – seja na melodia, no poema, no uso dos instrumentos, na voz, no apelo aos sentidos ou à emoção.

A madrilena Travis Birds – «não é o nome que me deram ao nascer, mas decidi mudá-lo em 2010, nunca gostei do meu nome», dizia em 2019 – define-se como «um misto entre uma criança, um senhor muito sério, uma tarada e um escaravelho comum». Desde o primeiro disco – A Costa dos Mosquitos é o terceiro –, a sua música mostra-se intensa, buscadora. Madre Conciencia, o terceiro tema do disco, diz: «Anda mãe consciência comigo em chamas, deita-me um olhar sereno, que quando era menina já me fazia estremecer...»

 

Disco1

 

A voz asperamente doce e sensível de Travis (que esteve em Lisboa em Novembro) faz-nos estremecer também. Isso prova-se neste disco também em temas como Las Cinco Disonante ou Bolero para un Trompeta, como já no disco anterior no belíssimo Coyotes. «Saiu a parte mais oculta que há em mim, a pedra mais procurada no meu jardim...» canta ela em Maleza. E como estamos gratos!

Título: La Costa de los Mosquitos

Autora e intérprete: Travis Birds

Edição: EMI/Calaverita

https://www.travisbirds.com 

 Disco2

No livreto deste disco, podemos ver o quadro pintado por Edouard Hammon, mostrando Haydn no meio de uma tempestade, navegando para Londres.

A experiência terá influenciado a composição de A Criação (1798). Mas também o facto de o austríaco Joseph Haydn ter estado em Londres em 1791-92 (voltaria em 1794-95), onde terá escutado pelo menos duas obras de Haendel, Israel no Egipto e O Messias, o terá levado a pensar em criar uma grande oratória, como conta Marc Vignal.

Haydn confessou que enquanto compunha a obra sentira «um fervor religioso muito particular». Vignal também se lhe refere como «a oratória das Luzes», que destaca as noções da humanidade criada à imagem de Deus e da fraternidade (também influenciada pelas ideias maçónicas) que reflectem o «espírito, o sopro e a imagem do Criador».

Não sendo a primeira vez que Savall grava obras primas de Haydn (já registara As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz), este duplo disco é um marco extraordinário. Em 1808, num dos últimos concertos a que o autor assistiu, ele referia que a música de A Criação viera do céu. Assim é.

Título: Die Schöpfung – A Criação

Autor: Joseph Haydn

Intérpretes: Jordi Savall, La Capella Reail de Catalunya, Le Concert des Nations, Yerce Suh, Tilman Lichdi, Mathias Winckler

Edição: Alia Vox | vgm@plurimega.com

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Maio 2022 - nº 724
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