Mundo
14 abril 2020

Não estamos todos no mesmo barco

Tempo de leitura: 7 min
No contexto do que aconteceu ou está a acontecer em alguns países (Bolívia, Equador, Brasil, Estados Unidos) analisamos o valor (o preço) da vida humana.
Paolo Moiola
Jornalista
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La Paz, 5 de Dezembro de 2019. O governo da autoproclamada presidente da Bolívia, Jeanine Áñez, emitiu o Decreto Supremo 4100. Com ele, o executivo do país andino estipula que irá compensar com 50 mil bolivianos (aproximadamente 6635 euros) cada uma das 29 famílias de pessoas mortas pelo exército e pela polícia durante os confrontos de Outubro e Novembro. A maioria dos mortos eram indígenas que protestaram pacificamente contra o golpe. Em particular, em Sacaba (Cochabamba, 15 de Novembro) e Senkata (El Alto, 19 de Novembro).

Guayaquil, 4 de Abril. Localizada nas margens do Oceano Pacífico, depois de Quito, a capital, Guayaquil é a segunda cidade do Equador, mas é o seu coração comercial e industrial. O pequeno país andino é um dos mais afectados pelo novo coronavírus (conjectura-se que é devido ao regresso do exterior de muitos emigrantes). Entre as consequências da epidemia, duas estão a causar arrepios: os corpos de muitos que morreram em casa não são levados pelos organismos competentes e, como se isso não bastasse, não há mais caixões. As imagens deixam-nos sem palavras nestes tempos de tragédia quotidiana que o mundo está a viver. Cadáveres embrulhados em tapetes e deixados nas bordas das ruas. Pessoas transportando os mortos no porta-bagagem do carro para abandoná-los à noite em qualquer lugar da cidade. Famílias obrigadas a manter o cadáver em casa tentando conservá-lo com um simples ventilador enquanto a temperatura ambiente atinge os 30 graus.

Se as famílias dos falecidos conseguem organizar um funeral, faltam-lhes os caixões. Os preços de um funeral com um caixão de madeira subiram de 400 para 800 dólares. Mas os caixões de madeira já não se encontram O jornal El Comercio conta a história de uma família forçada a enterrar o seu ente querido num saco plástico. «Uma saída digna», comenta o jornal equatoriano (6 de Abril).

Entretanto, chegam do hospital público Theodoro Maldonado Carbo as imagens de corpos fechados em sacos de plástico pretos e empilhados num local que não é a morgue. Neste enquadramento trágico, compreende-se o suspiro de alívio da Câmara Municipal depois de ter recebido em doação 2000 caixões de cartão. No mercado livre em Guayaquil, um funeral com um caixão de cartão custa 250 dólares.

brasilHomenagem ao pessoal de saúde que morreu com a covid-19 no Brasil. No país a pandemia já fez 1328 mortos e há 23 430 infectados (Foto: Lusa)

 

Brasília, 2 de Abril. É publicada a lei que atribui 600 reais (uns 107 euros) a trabalhadores informais e desempregados no Brasil. É a primeira medida (mínima) contra o coronavírus tomada pelo «Trump do Trópico», Jair Bolsonaro, o presidente negacionista (da pandemia, da emergência climática, da destruição da Amazónia) que lidera o grande país latino-americano. Para melhor compreender a situação, é preciso lembrar que só nas favelas brasileiras vivem (pelo menos) 13,6 milhões de pessoas.

Hart_Island-Bronx-NewYork_photo-Doc.SearlsVista aérea da Ilha Hart (Bronx), em Nova Iorque (Foto: Doc Searls)

 

Nova Iorque, Ilha Hart (Bronx), Abril. O estado de Nova Iorque é o mais afectado pelo coronavírus (mais de 10 mil vítimas no dia 14 de Abril). Os mortos que permanecem na morgue por mais de duas semanas sem ser reclamados são levados para o ilhéu de Hart, onde o enterro ocorre em valas comuns. Os mortos são sem-abrigo (estimados em pelo menos 60 mil só em Nova Iorque) e indigentes sem família. Em tempos normais, 25 cadáveres são enterrados na ilha por semana, neste momento são 25 por dia, noticia a CNN (10 de Abril).

Estes mortos não reclamados não receberão a factura. Sim, porque nos EUA ser tratado – e possivelmente manter-se vivo – custa muito, como afirmou a CNBC (1 de Abril), o canal de negócios da rede norte-americana NBC.

«Graças aos legisladores», lê-se no site, «os testes para coronavírus são agora gratuitos para todos os americanos. Mas se acusarem positivo para a covid-19 e precisarem de tratamento médico, os gastos hospitalares podem facilmente custar aos americanos dezenas de milhares de dólares, mesmo que tenham seguro. Aqueles que estão hospitalizados com coronavírus podem esperar pagar entre 42 486 e 74 310 dólares se não tiverem seguro ou se receberem cuidados em lugares que não estão integrados na rede (de aderentes) da sua companhia de seguros, de acordo com uma análise recente da FAIR Health, uma organização independente sem fins lucrativos. Aqueles que têm seguro e que recorrem aos serviços da rede, terão de pagar do próprio bolso valores entre 21 936 e 38 755 dólares, dependendo das disposições de partilha de custos do plano de saúde.»

Perder todas as suas poupanças ou ir à falência não é o maior risco. Os muitos americanos que estão a perder ou irão perder os seus empregos em consequência desta crise também se encontrarão sem o seguro de saúde que está incluído no seu contrato de trabalho (seguro de saúde fornecido pelo empregador). O Instituto de Política Económica de Washington DC estimou que 3,5 milhões de trabalhadores poderiam ter perdido o seu seguro de saúde só nas últimas duas semanas.

Na Bolívia, uma pessoa morta foi avaliada – oficialmente – em 6635 euros. No Equador, centenas de mortos estão a ser enterrados em caixões de cartão. Em Nova Iorque, a metrópole do mundo, centenas de mortos sem família estão a ser enterrados em valas comuns, enquanto no país os doentes da covid-19 devem (também) esperar que a sua conta bancária suporte o tsunami das despesas médicas.

Em 2016, D. Vincenzo Paglia publicou um ensaio sobre a eutanásia e o acompanhamento dos doentes. O título é questionador: «Morte irmã. A dignidade de viver e morrer». A tragédia do novo coronavírus, no entanto, mostrou, mais uma vez, que a morte não é irmã ou pelo menos não é para todas as pessoas. Nem a dignidade. Isso também tem um preço e nem todos o podem pagar. Parafraseando Cinzia Pennati, uma professora e escritora: «Não, não estamos todos no mesmo barco.»

 

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EDIÇÃO
Julho 2020 - nº 704
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