Igreja
19 janeiro 2026

Levar alegria ao mundo

Tempo de leitura: 5 min
O padre Gabriel Angella, missionário comboniano da região de Karamoja, Uganda, conta-nos como se sente feliz ao partilhar com as outras pessoas a alegria que Jesus Cristo lhe deu.
P. Gabriel Angella
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Chamo-me Gabriel Angella e sou padre missionário comboniano de Karamoja, Uganda. Fui ordenado sacerdote a 23 de Abril de 2022 na minha paróquia de Namalu. Foi um dia de grande alegria para mim e para os paroquianos de Namalu, na diocese de Moroto, na sub-região de Karamoja, pois fui o primeiro sacerdote da minha paróquia, o primeiro missionário comboniano da diocese de Moroto e o terceiro da região de Karamoja.

Porque digo isto? Após estes anos como sacerdote, percebo que, em várias ocasiões, durante os meus esforços e lutas diárias, a lembrança do dia da minha ordenação e a alegria que trouxe a pessoas de diferentes origens e condições sociais tem sido uma fonte de força e encorajamento para mim. Eu era o motivo da alegria deles!

Acredito que a essência do meu sacerdócio é levar alegria aos outros. Levar alegria a um mundo oprimido por inúmeros motivos de tristeza, como conflitos, pobreza, desesperança, corrupção e injustiça. Olhando para trás, para os últimos anos, diria que esta tem sido a agenda do meu sacerdócio: partilhar com os outros a alegria que Cristo me deu.

Após a minha ordenação, os meus superiores designaram-me para trabalhar na paróquia Maria Mãe de Deus de Kanawat, na diocese de Kotido, Karamoja. Como missionário, eu deveria ter sido enviado para trabalhar fora da minha região, ou mesmo do meu país. No entanto, fiquei feliz por ter sido designado para a minha região, entre o povo karimojong: um karimojong evangelizando os karimojong. Isto é semelhante ao que São Daniel Comboni disse há muitos anos quando falou em salvar África com África.

Nos últimos anos, a minha experiência como sacerdote tem sido de grande satisfação e realização. Adaptei-me facilmente ao contexto pastoral da paróquia, uma vez que não enfrentei os desafios da aprendizagem da língua e da cultura que têm os missionários estrangeiros.

Usei o meu conhecimento da língua para garantir que pregava a Palavra de Deus de forma eficaz. No fundo, sabia que uma coisa é alguém que acabou de aprender a língua pregar para si e outra é alguém que realmente fala a sua língua e compreende a sua cultura. Isto, por si só, provocou uma mudança significativa no nosso povo.

As pessoas ansiavam pela Palavra de Deus diariamente, por isso não foi surpreendente que o número de cristãos que assistiam à Santa Missa aos domingos duplicasse. Mais tarde, percebi que isso se devia ao facto de sentirem que Deus lhes falava através da pregação.

Embora ainda haja muito a fazer para traduzir a mensagem do Evangelho para a vida quotidiana, fico feliz em observar que muitos tentaram harmonizar as suas vidas com a mensagem do Evangelho. Muitos agora estão entusiasmados e começam a viver uma vida sacramental.

 

Desafios

Durante estes anos na paróquia, celebrei 18 casamentos. Isto é um milagre, pois normalmente seriam necessários mais de dez anos para alcançar este número. Estamos em Karamoja. Aqui, as pessoas valorizam a poligamia!

Em Karamoja, um sacerdote não é visto apenas como um homem de Deus, mas também como um homem rico disposto a ajudar a todos. Essa percepção vem dos encontros anteriores com os missionários europeus. Eles encontraram situações desesperantes de extrema pobreza em Karamoja. Isso levou-os a procurar maneiras de ajudar as pessoas. Construíram escolas, hospitais e igrejas. Alimentaram os famintos e cuidaram dos doentes. Promoviam a educação. No entanto, esta mentalidade não encorajou o nosso povo a assumir a responsabilidade pela sua própria igreja e pelos seus sacerdotes. Acreditavam que era responsabilidade dos padres cuidar deles, e não o contrário. Sou missionário de Karamoja e trabalho cá. Como posso ter acesso aos mesmos recursos que os meus colegas europeus para continuar a apoiar o nosso povo? 

No entanto, nunca considerei isso um problema, mas sim um desafio. A primeira coisa que fiz foi começar a trabalhar com pessoas educadas pela Igreja para mudar a mentalidade da população. Disse-lhes que a nossa Igreja é nossa responsabilidade colectiva. Os pobres também o são. Sou karimojong como eles e, portanto, pobre como eles. Precisamos de nos unir, cuidar uns dos outros e cuidar da Igreja. Esta é uma mensagem que continuo a dizer hoje. Alguns compreenderam e apoiam-nos; outros compreendem, mas não podem apoiar-nos devido à pobreza. E há os que não acreditam na mensagem.

Estou muito feliz com a minha experiência em Karamoja. É uma base para o meu futuro trabalho missionário fora da minha região.

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Janeiro 2026 - nº 764
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