Igreja
26 fevereiro 2026

João, modelo do discípulo

Tempo de leitura: 8 min
João foi um dos doze apóstolos de Jesus, que O seguiu com prontidão e fidelidade total. Viveu com e como Jesus, experimentando profundamente o Seu amor. João é o protótipo do discípulo de Jesus.
Pedro Nascimento
Leigo missionário comboniano
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João (nome hebraico que significa «O Senhor dá a sua graça») era natural da Galileia, da região do lago de Tiberíades. Pertencia a uma família de pescadores: o seu pai chamava-se Zebedeu e a sua mãe, Salomé. O primeiro encontro com Jesus marcou-o tão profundamente que até recordava a hora precisa: quatro da tarde. Junto com André, irmão de Pedro, ele tinha ido para as margens do Jordão para escutar João Baptista, quando este, indicando Jesus que passava, disse: «Eis o Cordeiro de Deus.» João seguiu o profeta de Nazaré e esteve com ele toda a tarde. Jovem em idade, mas um peregrino sedento de Deus, João tinha encontrado o seu caminho.

Mais tarde, quando  João estava no barco com o seu pai Zebedeu e o seu irmão Tiago, a consertar as redes, Jesus passou e chamou-os. Eles deixaram de imediato o seu ofício, família e amigos e, sem medo, decidiram seguir Jesus (cf. Mt 4, 21-22).

João ensina-nos que a vocação nasce no meio da vida comum, mas exige coragem para deixar tudo e confiar em Jesus que chama. Também nós somos convidados a viver o Senhor, a amá-lo e a testemunhá-lo com a nossa própria vida, em qualquer lugar e circunstância em que nos encontremos. Na oração, na intimidade com o Senhor, poderemos perguntar-lhe: que queres de mim, Senhor? Eis-me aqui, para ti, para te amar e seguir com alegria e entusiasmo.

 

Amar até ao extremo

João foi um discípulo apaixonado, que escreveu a partir da vivência do encontro com Cristo. Por isso, os seus textos bíblicos são ricos em pormenores e grande profundidade espiritual. Ele fazia parte do grupo restrito das três testemunhas privilegiadas, que compreendia Pedro e Tiago, que presenciaram a ressurreição da filha de Jairo, contemplaram Jesus transfigurado sobre o monte e estiveram próximos dele no momento da agonia no Getsémani, antes da prisão e morte de Jesus. Embora também ele tivesse fugido no momento da captura do Mestre, depois arrependeu-se e reconsiderou, sendo único dentre os apóstolos a permanecer junto da cruz. Aqui lhe foi confiada Maria como mãe e foi a ela confiado como filho. Desde então, João acolheu Maria como mãe querida, cuidando dela com amor e fidelidade. Neste momento, Jesus entregou-nos Maria para ser mãe e da Igreja, uma mãe poderosa e amorosa que vela sempre por nós, como dizia São Daniel Comboni.

Depois do anúncio da ressurreição feito pelas mulheres, João correu com Pedro ao sepulcro; chegou primeiro, viu que o Mestre não estava ali, sinal da ressurreição, mas não entrou por respeito a Pedro. Mais tarde, contemplaria no Cenáculo junto com os outros apóstolos naquela mesma tarde. Nas aparições no lago da Galileia, João foi o primeiro a reconhecer Jesus e a gritar aos outros: «É o Senhor!».

João é apresentado nos Actos dos Apóstolos, frequentemente em conexão com Pedro, com a missão de evangelizador. Quando a Igreja começou a desenvolver-se e as autoridades de Jerusalém procuraram impedir a difusão da nova doutrina, os primeiros a ser aprisionados foram Pedro e João, que não se deixaram intimidar, convencidos de ter de obedecer primeiro a Deus do que aos homens. Estava com Pedro quando este curou o paralítico na porta do templo e junto com ele foi a Samaria para confirmar na fé os primeiros convertidos. Paulo, recordando aos gálatas a sua viagem a Jerusalém, coloca-o entre as «colunas» da Igreja-mãe de Jerusalém, juntamente com Pedro e Tiago «irmão do Senhor».

Quando os apóstolos se dispersaram pelo mundo para anunciar a Boa Nova, de acordo com uma tradição, João ter-se-ia mudado para Éfeso junto com Maria, onde teria escrito o quarto Evangelho e as três cartas. Ali faleceu com uma idade extraordinariamente avançada, sob o imperador Trajano.

João era o discípulo amado de Jesus, não porque fosse mais importante que os outros, mas porque soube abrir o coração para experimentar o amor de Cristo. O amor é, efectivamente, o conteúdo central do seu Evangelho e das suas cartas. Para João, o essencial é amar como Jesus, um amor que exige uma resposta de amor. Ele recorda estas palavras de Jesus: «Eu dou-vos um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros» (Jo 13, 34). Nós somos muito amados pelo Senhor e Ele deseja que, a exemplo de João, possamos abrir-lhe o nosso coração, amá-lo sem medos, sem reservas. E assim, transformados, possamos testemunhar esse amor a todos os povos de toda a Terra.

 

Chamado a uma alegre proximidade

Américo António Mutepa é um jovem comboniano moçambicano que integra o grupo de estudantes de Teologia que se encontra na Maia. Ele partilha como se sentiu chamado a seguir Jesus como missionário.

«A minha vocação começou a germinar quando era novo, quando olhava a figura do padre na Igreja, com os seus gestos e proximidade aos crentes e não-crentes. No entanto, só despertou anos mais tarde, quando entrei no grupo vocacional. Nos encontros fui compreendendo o que é ser padre e irmão missionário, em particular segundo o carisma comboniano.

Fiz o curso de Serviço Social. Os estudos ajudaram-me a conhecer as dificuldades e lutas das pessoas no dia-a-dia e percebi como era necessário fazer Cristo presente no meio deles, com palavras e obras. Senti que Deus me chamava a fazer parte da congregação dos Missionários Combonianos, que a exemplo do fundador estão chamados a evangelizar os mais pobres e abandonados, promovendo a paz, a justiça e a dignidade humana.

Terminado o processo de discernimento vocacional, em 2019 comecei a primeira etapa de formação e, assim, responder generosamente chamamento de Deus. Esta primeira etapa de seguimento de Jesus e preparação para a vida missionária terminou em Maio de 2025, quando dei o meu primeiro “sim” a Deus e fiz os votos temporários de castidade, pobreza e obediência.

Agora estou numa nova etapa de formação missionária na Maia, fora do ambiente familiar de origem. Vivo numa família mais ampla, numa comunidade internacional e intercultural. Existe o desafio de estar numa cultura, língua, ambiente diferente dos meu, mas sinto-me feliz. Seguindo o nosso carisma comboniano, cooperamos com o grupo que dá apoio às pessoas em situação de sem abrigo e expressam o amor cristão e a proximidade evangélica aos esquecidos, oprimidos e excluídos do mundo. É um exemplo palpável de fidelidade ao carisma de São Daniel Comboni, que anunciou o Evangelho aos mais pobres e necessitados e com eles partilhou a vida. O meu sonho é estar perto dos que precisam da minha ajuda, ver Cristo no próximo e ser testemunha do amor de Jesus e do Evangelho.»

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EDIÇÃO
Fevereiro 2026 - nº 765
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