Igreja
20 fevereiro 2020

Ser missão hospitaleira

Tempo de leitura: 5 min
Em Timor-Leste, os Irmãos Hospitaleiros de S. João de Deus têm um centro que acolhe as pessoas com doença mental grave. Profissionais e voluntários colaboram para conseguir a estabilização, recuperação e reintegração familiar e social destes doentes.
Mário Breda
Leigo missionário comboniano
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Estou a colaborar como voluntário no Centro de Apoio à Saúde em Laclubar, distrito de Manatuto, uma obra dos Irmãos Hospitaleiros de S. João de Deus. O objectivo principal desta estrutura é o internamento temporário de pessoas com doença mental grave, com vista à sua estabilização, recuperação e reintegração familiar e social. Também se faz o acompanhamento, a nível nacional e em articulação com os serviços de saúde distritais, de outros pacientes que permanecem em suas casas medicados.

Para levar a cabo estes objectivos, o centro conta actualmente com o trabalho de uma enfermeira especialista em Saúde Mental e Psiquiatria (portuguesa), dois enfermeiros generalistas, um médico de clínica geral, bem como de auxiliares de internamento, educadoras, responsável administrativo e técnicos de manutenção e apoio geral. Além disso, é também aqui o local de formação para os jovens aspirantes a futuros irmãos religiosos de S. João de Deus, no seu primeiro ano, junto dos doentes e necessitados como é o carisma hospitaleiro.

Testemunhar o amor

Trabalho no centro como voluntário, procurando dar o meu tempo e afecto e sendo testemunho de amor e hospitalidade. Em colaboração com a equipa de monitoras-educadoras, que desenvolvem várias actividades ocupacionais com os pacientes ao longo da semana, fui procurando observar, conhecer e acomodar-me de forma construtiva, no respeito pela realidade existente. Participo e intervenho em actividades lúdicas, para estimulação de capacidades pessoais e promoção do bem-estar (jogos diversos, desenho e pintura, exercício físico, caminhada, canto e dança). Também colaboro nos momentos de formação, abordando distintos temas: promoção da saúde mental, importância da medicação, higiene pessoal e ambiental, civismo, geografia dos distritos, preparação para a alta. Apoio ainda nas tarefas que exercitam os pacientes para a vida do dia-a-dia na reinserção familiar: limpeza dos jardins e recolha desses lixos, ida ao mercado, ajuda na limpeza do internamento; são os pacientes que põem a mesa e lavam a loiça (rotativamente) e são ajudados a lavar a sua roupa.

Mario Timor Leste 02

No Centro de Apoio à Saúde em Laclubar, distrito de Manatuto, em Timor-Leste, acolhem-se doentes mentais e visa-se a sua recuperação e integração na sociedade

As principais limitações e dificuldades na acção voluntária, seja com os pacientes seja com os colaboradores, têm que ver com a comunicação. O conhecimento dos hábitos, tradições e valores é importante para a compreensão de atitudes e comportamentos e para não sentir estranheza perante o que é diferente.

Além disso, poder compreender e falar tétum, a língua oficial em Timor-Leste (e que permite o diálogo entre a quase vintena de línguas locais), é uma necessidade fundamental para a integração e relação com as pessoas. Embora o português seja também língua oficial, é conhecido e utilizado sobretudo na Administração Pública e em contextos profissionais diferenciados. Aqui no interior, apenas algumas pessoas falam um pouco em português; não esqueçamos que, durante os vinte e quatro anos da ocupação indonésia, a língua portuguesa foi banida das escolas e a retoma demorará o seu tempo. O português será sempre uma segunda língua, aprendida como língua estrangeira. Por isso, também os missionários, voluntários e profissionais estrangeiros devem aprender tétum se querem uma integração plena.

Neste sentido, além do estudo inicial que realizei antes de vir (e que acho indispensável), procuro ir aprendendo no dia-a-dia, mas é sempre insuficiente para estabelecer uma conversação para lá do trivial. Ter atenção que aquilo que se tenta dizer nem sempre corresponde ao que a outra pessoa entendeu.

Como voluntário psicólogo, isto limita a comunicação com os doentes, embora na sua generalidade não tenham indicação para psicoterapia, como acontece neste grau de doença. Ainda assim, a intervenção e o olhar na perspectiva psicológica da compreensão das limitações e necessidades de cada doente, das atitudes que servem e que não servem a sua recuperação e bem-estar pode ser um contributo importante. 

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EDIÇÃO
Março 2020 - nº 700
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