Igreja
25 junho 2021

Aprendiz da missão

Tempo de leitura: 5 min
O padre Francisco Machado, missionário comboniano que se encontra actualmente no Gana, partilha a sua experiência de missão em terras africanas.
Francisco Machado
Missionário comboniano
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Como missionário comboniano se há algo que a minha experiência de vida por terras africanas me tem ensinado é que a missão não é uma questão de matemática, mas sim de fé e de amor e doação, pois somente o amor de tudo é capaz.

A minha vida marcada pela paixão por Jesus Cristo mostra claramente e com toda a evidência que os nossos projectos preconcebidos e estabelecidos contam pouco, dificultam, e até desfiguram a beleza do nosso testemunho. A missão caracteriza-se essencialmente por uma clara predisposição ao encontro com os outros.

Sim, a maior parte da minha vida de missionário comboniano tem sido em África, mais precisamente no Gana: um país muito belo e cheio de encantos e de possibilidades; cheio de boa gente que sonha e luta pela conquista de um mundo no qual todos contam.

Missão na África

Nasci em Brito, Guimarães, entrei no seminário ainda muito jovem e fui ordenado sacerdote em Agosto de 1990. Quatro anos depois, já me encontrava em terras africanas, no Togo. Iniciei a minha actividade missionária com o estudo da língua e cultura ewe, que é uma das muitas línguas locais que encontramos nestas zonas.

Fui enviado para uma aldeia do interior. Ao princípio, parecia-me que não tinha nada e que estava privado de todas as coisas boas e belas que tinha deixado no meu país. Pouco a pouco, porém, fui-me dando conta de que, na verdade, tinha tudo o que verdadeiramente precisava e que, mais do que nunca, me sentia livre para estar atento e disponível aos outros nas suas necessidades.

No ano seguinte, fui enviado para o Gana, mas trabalhando com o mesmo povo Ewe. Foi uma experiência maravilhosa de primeira evangelização onde a disponibilidade e abertura era o meu diapasão de vida e, na verdade, o único necessário e importante. A missão ensinava-me que o essencial era procurar ser uma presença amiga e disponível no meio desse povo que sofria e procurava uma vida mais digna, mais humana e mais cheia de sentido.

Sim, sinto que me tenho doado ao povo que me acolheu e me tenho aplicado no estudo da sua língua e costumes para melhor poder compreender os seus anseios e participar nos seus sofrimentos. Porque me acolheram como “homem de Deus”, procuro ser mais e mais mensageiro da vida e do amor.

 

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Francisco Machado, no Gana (Foto Além-Mar) 

É verdade que a falta de experiência e de conhecimento da cultura nos leva a cair em disparates. No entanto, no meu serviço missionário, eu procuro escutar este povo maravilhoso e sofredor. Creio que é aqui que se encontra o segredo do anúncio jovial, claro e audacioso da Boa Nova de Jesus que nós chamamos primeira evangelização. Ou seja, eu tento aproximar-me da gente sem complexos nem preconceitos e conversar com eles: sejam eles jovens, crianças e idosos, homens e mulheres, saudáveis e doentes. Falamos da vida e, juntos, tentamos compreender a importância do amor de Deus Pai e Criador de toda a humanidade.

Promover as vocações

Neste momento, encontro-me a trabalhar em Acra, capital do Gana. Como formador e promotor vocacional, dialogo com os jovens e tento ajudá-los a questionarem-se sobre a aventura maravilhosa e digna de ser vivida que é a vocação missionária e comboniana.

Tento ajudar os jovens a descobrirem que amar verdadeiramente é não ter medo de dar a vida sobretudo pelos mais pobres e abandonados e a não ter medo de deixar tudo por Jesus. Acompanho vários jovens que procuraram os Missionários Combonianos e mostraram o seu desejo em responder ao apelo de Jesus: «Vem e segue-me.»

Neste momento, estou a ajudar a construir um seminário para os seminaristas combonianos no Gana. Como não tínhamos lugar para acolher estes jovens na sua formação intelectual e espiritual, com a ajuda preciosa de vários amigos portugueses, especialmente o padre Manuel Brito, sacerdote diocesano de Esposende, estamos a concluir a construção de um seminário.

Vejo que missão é, antes de tudo, aprender a ser discípulo de Jesus Cristo na escuta às necessidades e anseios do povo no meio do qual trabalhamos para o ajudar não naquilo que nós pensamos e programamos, mas sim naquilo que o povo necessita e anseia.

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EDIÇÃO
Julho 2021 - nº 715
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