Igreja
07 outubro 2021

Fen Xiang, rosto da missão comboniana na China

Tempo de leitura: 9 min
O projecto Fen Xiang tem como objectivo favorecer a partilha de recursos e meios com as dioceses da China continental, mediante a formação do clero, religiosos e leigos.
Daniel Cerezo
Missionário comboniano
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O autor do artigo (à esq.) durante uma das suas visitas à China (© Comboni Press)

 

Para uma congregação exclusivamente missionária, o estabelecimento em Macau como um passo preliminar para coordenar as actividades na China foi inicialmente positivo e conveniente. O ponto crítico era a sua concretização. Sem qualquer experiência missionária anterior no mundo chinês e sem outras experiências fiáveis ou diferentes, os Missionários Combonianos fixaram os olhos em Jesus e começaram a reflectir e discernir a necessidade de uma presença, sem que no início interessassem as modalidades, no país ateu, materialista e não-cristão da China.

A abertura de uma comunidade em Macau e, mais tarde, de outra em Taiwan, foram as bases  que permitiram lançar a presença comboniana no contexto chinês. No entanto, ainda se olhava para a China continental, onde se queria estar presente.

Esta necessidade fez com que se procurassem caminhos e se concretizassem iniciativas. Embora a tarefa fosse complexa, já no final de 1998 foi elaborado um plano para realizar esse sonho. Foi chamado projecto Fen Xiang, um nome  que sublinhava a visão de partilha e entreajuda entre igrejas, de que os Missionários Combonianos se queriam fazer instrumentos e animadores. Tinha como objectivo promover um tipo de presença que, naquela altura, não estava totalmente desenvolvida, mas permitiria aos Missionários Combonianos estarem em contacto e, de alguma forma, partilhar as preocupações da Igreja na China. Fomenta também uma dimensão social, que incluía a promoção do desenvolvimento humano  integral através do envolvimento em projectos de apoio a crianças pobres, a orfanatos com crianças deficientes físicas, a doentes de sida, a lares de idosos.

Ter uma presença no continente chinês foi, desde o início, uma estratégia que na sua forma e aplicação se desenvolveu lentamente naquilo a que chamamos «missão comboniana itinerante». A itinerância comboniana na China tinha começado em Outubro de 1998, realizando viagens, contactos e interacções com os responsáveis da Igreja na China.

Nestes vinte e três anos de existência, o projecto Fen Xiang abriu frentes e lugares na sua inserção e colaboração com a Igreja na China. Os seus objectivos têm-se centrado na difusão do espírito missionário da Igreja, no compromisso inquestionável com os mais pobres da sociedade, e com uma missão itinerante, que se concretiza nas viagens feitas de Macau ao continente chinês.

 

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Crianças numa creche de religiosas (© Além-Mar/José Rebelo)

 

Fen Xiang assumiu, durante estas últimas duas décadas, a colaboração com a Igreja na China no campo da formação, com o propósito já intuído e promovido por São Daniel Comboni de que a Igreja local crescerá e se fortalecerá por meio de uma boa preparação dos seus agentes pastorais. Fê-lo num contexto comunista e ateu e, ao mesmo tempo, numa sociedade em constante mudança e transformação; e como os estrangeiros têm o seu ingresso restringido, o projecto ficava muito mais nas mãos de Deus do que nas humanas.

Em 1996, a comunidade de Macau iniciou o seu percurso, embora de forma muito reduzida, realizando algum projecto de colaboração com a Igreja na China, no campo formativo. Posteriormente, a partir do ano 2000, foi criada uma equipa responsável pelo projecto Fen Xiang, mas sempre com pessoal muito limitado. Foi no ano de 2007 que a equipa se consolidou.

Objectivos do projecto Fen Xiang

Fen Xiang tem como objectivo geral o crescimento e fortalecimento da Igreja local, seguindo o lema de Comboni de «Regenerar África com África» (no nosso contexto «China com a China»), para que, desse modo, a Igreja local cresça, realize algumas iniciativas e projectos.

Existe uma boa colaboração com a Igreja da China no campo da formação através de bolsas de estudo para padres, professores de seminários, religiosas que se preparam seja no âmbito religioso, teológico e pastoral, seja na área das ciências sociais ou da saúde, fazendo especializações que os capacitem para servir melhor a sociedade.

A equipa de Fen Xiang, que periodicamente realiza visitas à China, dá cursos de formação e exercícios espirituais e partilha as inquietações da vida religiosa e missionária com seminaristas, religiosos, sacerdotes e leigos, principalmente no Norte da China, nas províncias de Gansu, Hebei, Henan, Shanxi, Shaanxi, Henan, Sichuan e Shenyang; também anima missionariamente a Igreja local e dá a conhecer São Daniel Comboni e o espírito missionário comboniano; publica o boletim Fen Xiang News três vezes por ano em cinco línguas, além do chinês. Desta forma serve como uma ponte entre Igrejas; Fen Xiang está também envolvido em projectos de promoção humana para expressar a dimensão social da fé, algo incontornável e inseparável da vocação missionária a favor dos mais pobres.

O que estava claro desde o início, e assim permanece até hoje, é que o projecto Fen Xiang foi inspirado por Deus e estava em sintonia com as características básicas do carisma comboniano: a preocupação com os marginalizados da sociedade (criando orfanatos, centros de ajuda, bolsas de estudo para estudantes pobres do campo); a necessidade de partilhar o espírito missionário com a Igreja local (por meio de cursos,  boletins, contactos pessoais e contribuições através de retiros); a formação religiosa da Igreja local (retiros anuais para padres, irmãs, seminaristas e leigos, cursos de formação para o pessoal da Igreja, acampamentos de Verão e Inverno para jovens), a fim de reafirmar que os Chineses são os missionários do seu próprio povo. Por outras palavras, pretendia-se muito discretamente fazer próprio o mantra de São Daniel Comboni: «Salvar África com África» que, no contexto chinês, se traduziu em «Salvar a China com os chineses».

Nestes anos de viagem de Fen Xiang podemos dizer que os resultados têm sido muito satisfatórios. Sacerdotes, professores de seminários e religiosos formaram-se em diferentes lugares, através da ajuda de Fen Xiang e, de volta ao seu país, ocuparam posições de responsabilidade para continuarem a ajudar nos seus respectivos lugares na formação cristã.

 

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Comboniano realiza um encontro com as crianças de uma escola na China (© Além-Mar/José Rebelo)

 

Os desafios de Fen Xiang

Os desafios de Fen Xiang, tangíveis e evidentes, não estão isentos de dificuldades quando se desenvolvem num contexto de insegurança. As visitas à China dependem de muitas circunstâncias, incluindo a obtenção do visto. Isto faz com que este projecto seja tipicamente missionário e comboniano. Tem sido e continua a ser uma obra escondida, onde prevalece a prudência e onde todo o protagonismo deve ser deixado nas mãos da Igreja local. Por isso, continuamos a apostar na formação integral dos seus agentes de pastoral, incluindo a formação humana, espiritual, intelectual e pastoral dos leigos. São eles que assumem responsabilidades nas actividades caritativas, na catequese e no impulso missionário.

Os frutos surgem como e quando Deus quiser, mas não há dúvida de que o testemunho da Igreja da China e dos seus agentes pastorais, que sofreram perseguições e continuam a sofrer o controlo do Governo, é algo que nos ajuda a pôr em prática o que sustentamos: que fazemos causa comum com as pessoas a quem somos enviados, que aprendemos com as pessoas e que convivemos com a Igreja local com quem partilhamos as nossas vidas. 

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Artigos
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Outubro 2021 - nº 716
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