Igreja
30 novembro 2021

Caminhar com os jovens afro-descendentes

Tempo de leitura: 9 min
O caminho que percorri com os afro-descendentes no Equador ensinou-me que evangelizar é ajudar cada pessoa a conhecer-se e a reconhecer que tem uma dignidade indelével, pois foi criado à «imagem e semelhança de Deus».
Ir. Joel Cruz
Missionário comboniano
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Em 1997, quando cheguei como missionário a Guayaquil, Equador, muitos jovens afro-descendentes juntavam-se nas esquinas das ruas, nos edifícios abandonados ou terrenos baldios. Pareciam ser grupos sem rumo, com uma vida sem sentido, sem uma razão de ser. Eram uma espécie de «células» criminosas que incutiam medo naqueles que ali passavam, pois eram considerados um «problema social». Devido à cor da sua pele, eram rotulados como «malfeitores»; de facto, quando eram vistos juntos nos transportes públicos, nas ruas, nos parques, nas praças, as pessoas afastavam-se e a polícia acudia imediatamente para os vigiar.

A história como Evangelho

A sociedade não tinha consciência ou conhecimento das feridas que esta visão infligia nestes jovens que, de várias maneiras, sentiam que não eram vistos como seres humanos iguais àqueles que não tinham a cor da pele dos oriundos de África. Sofriam com as exigências urbanas, que os forçavam a abandonar as suas raízes humanas, espirituais e culturais para «criar raízes» numa história, religiosidade, espiritualidade e cultura que não eram as suas. Ao sentirem-se «estrangeiros», mesmo sendo equatorianos, levava-os a seguir o caminho da «imitação» para serem aceites como cidadãos «normais» e assim terem acesso às oportunidades do cidadão que não era afro-descendente.

Esta percepção da realidade juvenil obrigou-me a pensar na pastoral como um caminho que os ajudasse a chegar ao lugar da autenticidade, da originalidade pensada pelo próprio Deus. Assim nasceu a Pastoral Juvenil Afro.

O meu caminho na pastoral afro começa com essas pessoas que não se sentem reconhecidas na sociedade, tal como no Egipto (livro do Êxodo) os escravos judeus eram «não povo», «não humanos», «não dignos», «não cidadãos», mas «eram» o que o imperador e a sociedade imperial ditavam. Neste itinerário, a chave que abriu a porta a um processo de libertação dos jovens afro-descendentes foram as conversas de rua, nos lugares onde se reuniam. Usava a reflexão baseada no livro do Êxodo, em cujas páginas comecei a inserir a história dos seus antepassados, um testemunho, com luzes e sombras, mas que iluminava o seu presente.

 

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O Ir. Joel Cruz, missionário comboniano mexicano (primeiro à direita na fila de baixo), caminhou com o povo afro-descendente do Equador durante treze anos. Procurou ajudá-los a aproximar-se da sua história e experiência na perspectiva do Evangelho 

 

Como missionários, acreditamos que a Palavra de Deus tem o poder de transformar uma história trágica numa história sagrada e, por isso, «é preciso tirar as sandálias», como Moisés, para não a pisar e danificar. Deus estava, está e continuará a estar presente e a caminhar nessa história que não é a nossa. Pela mesma razão, sabemos que a nossa missão é ajudar os afro-descendentes a sacudir da sua vida o pó da tragédia e, assim, possam ver o Evangelho onde parece haver apenas sombras. Necessitam tomar consciência da sua originalidade divina, daquela primeira dignidade que provém do próprio Deus. Este é um processo longo (em tempo e esforço) porque é difícil expulsar os demónios (maus conselheiros) que os possuem e semeiam convicções negativas.

Foi assim que comecei a compreender e a assumir o meu papel de missionário a partir do caminho de Moisés: deixar as estruturas e fortalezas do império e da religião faraónica, convencer o «escravo» de que esta condição não é digna nem agradável a Deus, ensiná-lo a sonhar com uma realidade diferente (Terra Prometida), encorajá-lo a partir e caminhar seguindo um novo horizonte: mais digno, mais fraterno, mais justo, mais humano, mais divino.

Para os afro-descendentes, esta aproximação evangélica à sua história causou-lhes dor, raiva, abriu feridas antigas, socioculturais e religiosas que ainda não estavam curadas. Mas também lhes permitiu reencontrarem-se com as suas raízes, com os costumes, tradições, espiritualidade e vivências africanas.

 

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Jovens afro-descendentes durante uma apresentação cultural (Foto Ir. Joel Cruz)

 

Beber do próprio poço

Fiz treze anos de caminho com o povo afro-equatoriano, procurando ajudá-los a aproximar-se da sua história e experiência na perspectiva do Evangelho. Percebi como, paulatinamente, foram descobrindo e aceitando que Deus não só esteve perto, mas que se fez carne neles e, por isso, podem afirmar que Deus também é negro. Entenderam que os afro-descendentes são seres humanos com a dignidade de filhos de Deus e que, por isso, os complexos e sentimentos de inferioridades não têm sentido.

E eu compreendi que a evangelização não está completa se só ficarmos na experiência da escravidão e se continuamos a percebê-la como a origem da situação actual. A raiz é mais profunda, invoca a memória do seu corpo e do seu espírito, que falam de um poço escondido, inconsciente, recusado, desconhecido… Um lugar humano, espiritual e teológico ao qual nem sempre se quer chegar: África. Esse continente que, socialmente, foi apresentado como lugar de indigência humana, espiritual, económica e cultural e, por isso, é frequentemente rejeitado e ocultado ainda que as evidências digam o contrário. Este processo é muito doloroso e, ainda que os afro-descendentes conheçam o Evangelho e encontrem Deus na sua história marcada pela escravidão, precisam de reencontrarem-se e reconciliarem-se consigo mesmos e com África para que a libertação seja possível.

Esta viagem antropológica, social, religiosa, espiritual e cultural ao lugar onde se encontra o seu núcleo ético-mítico é o que os continua a orientar quando fazem os tambores, as marimbas, as maracas, quando escutam os sons e o seu corpo se expressa de um modo distinto na sociedade e na Igreja. Este itinerário tem de ser percorrido para que os afro-descendentes possam encontrar o rosto de Deus revelado ao seu povo e possam partilhar este tesouro com o mundo. Esta viagem faz com que seja possível compreender o mistério da encarnação, do Deus que se fez plenamente humano, assumindo um rosto negro. E com fé e esperança percorrer o caminho de seguimento de Jesus e encontrar a verdadeira libertação.

 

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Mulheres afro-descendentes durante uma celebração da Eucaristia em Guayaquil, Equador (Foto Ir. Joel Cruz)

 

Ajudar a fazer uma viagem de «retorno»

Esta viagem de retorno a África não se faz para ficar lá, mas para regressar enriquecidos, mais fortalecidos, mais originais, mais autênticos.

Quando o afro-descendente deixa o «vestido» de escravo, esse que lhe apresentavam como próprio, e começa a «revestir-se» de África, o evangelizador pode dizer que «tudo está cumprido», porque o resto é caminho dos afro-descendentes. São eles que se inserem com as suas riquezas ancestrais na sociedade e na Igreja, ajudando-as a crescer em espírito e verdade. E já não há razões que levem a reivindicar, porque se aceita a filiação divina de todos os seres humanos. Assim, a fraternidade universal torna-se visível nesta pessoa concreta, que partilha o que é com os seus irmãos e irmãs, que são diferentes, mas iguais em dignidade.

«Revestir-se» de África, neste sentido, não é algo superficial ou folclórico, senão teológico e espiritual, que se converte no motor de uma nova existência e convivência, sendo a diversidade percebida como uma riqueza e não como uma ameaça. É chegar a rezar o Pai-Nosso com a vida e com a convivência fraterna, partilhando e complementando-se com as diferenças. 

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EDIÇÃO
Julho 2022 - nº 726
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