Igreja
22 fevereiro 2022

Pelos caminhos da missão

Tempo de leitura: 7 min
De regresso à República Democrática do Congo, vinte anos depois e com 79 anos de idade, o padre Gian Paolo Pezzi partilha as primeiras impressões da nova missão.
Gian Paolo Pezzi
Missionário comboniano
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No passado dia 25 de Agosto, deixei a Itália rumo a Kinshasa. Esta foi a minha terceira viagem a África como missionário. A primeira vez, com 26 anos, viajei para o Burundi, em 1969. A segunda vez tinha 67 anos e tinha sido destinado pelos meus superiores à República Democrática do Congo; agora chego de novo a este país, mas tenho 79 anos de idade. Entretanto, tinha estado na América Latina – Equador e Colômbia – e nos Estados Unidos da América. Vivi o resto da minha vida missionária em Itália, o meu país natal.

Partir, deixar uma actividade por outra, uma língua por outra, um mundo cultural por outro, tornou-se algo comum para mim e não me desperta emoções fortes, nem apreensão nem incerteza. Viver sem raízes humanas e sociais já não me assusta. No entanto, depois de tanto vaguear pelos caminhos da missão segundo velhos e novos paradigmas, sinto a necessidade de abandonar qualquer indício de falsa segurança, retomar a vida austera e dura do expatriado, renunciar ao conforto e partir novamente graças à fé, sem uma morada fixa, numa espécie de nomadismo espiritual que cada migrante experimenta, para redescobrir a unicidade do Deus Pai. Viajei por três continentes, uns vinte países e rezei numa multiplicidade de línguas e culturas. Talvez isto me tenha libertado da fé num Deus local, atento aos meus pequenos interesses e ideais. Do derrubamento desse Deus surgiu, talvez, a busca de um Deus Senhor do Universo, presente em todos os cantos do mundo, que nos liberta como as aves do céu enquanto nos envolve na sua brisa suave.

De regresso ao Congo

Foi com estes pensamentos que passei a minha viagem até Kinshasa. Esta cidade desordenada devolveu-me um «gosto» de África. É um lugar esplêndido, apesar dos cortes de energia e da internet, do sabor amargo do mpondu (prato feito com folhas de mandioca) e da insegurança. Mas o meu destino é Butembo, uma cidade que conheci pela primeira vez há vinte anos e que se localiza dois mil quilómetros a leste da capital.

«A que horas é a saída?», perguntei eu, mas tudo o que recebi em resposta foram sorrisos que me lembraram que em África não há pressa. Havia apenas um bilhete para Goma, depois era necessário percorrer 350 quilómetros ao longo de uma estrada de terra batida através do Parque Virunga, outrora um local esplêndido e habitat de animais da selva que se tinha transformado numa atracção turística quando, vindo do Burundi, o visitei em 1970. Hoje em dia é um santuário para bandos de militares e criminosos.

 

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O padre Gian Paolo Pezzi durante a sua primeira missão na República Democrática do Congo e com crianças e jovens no regresso ao país, em 2021

 

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Volante à direita

O meu superior não queria que eu viajasse por terra e pediu-me que ficasse em Kinshasa até eu conseguir arranjar um bilhete de avião para Butembo. Disse-me que é uma viagem perigosa, com numerosos postos de controlo onde os militares extorquem dinheiro aos viajantes em vez de os protegerem. Para o tranquilizar, disse-lhe que, mesmo sendo ancião e tendo de viajar dez horas por estrada, conseguia lidar com isso. Quanto à insegurança, estava a pensar em todos aqueles que sofrem com ela todos os dias, por isso, se queremos fazer causa comum com os pobres, teremos de a enfrentar também.

No final acabou por ser uma viagem tranquila, num dia esplêndido, reduzida por várias circunstâncias a pouco mais de sete horas e evitando os abusos dos militares. Portanto, aqui estou em Butembo, ainda um pouco confuso. Esta cidade tinha 250 mil habitantes quando a conheci em 2001. Agora que se espalha de colina em colina, dizem que tem mais de dois milhões.

Apenas uma rua, a Rue du Président, é asfaltada. As outras são na realidade caminhos de potopoto (barro típico desta região na época das chuvas), lamacentos quando chove e poeirentos quando está sol. As estradas sobem tão abruptamente nas colinas, que só os peões se arriscam a percorrê-las.

A comunidade comboniana onde vivo está a 1850 metros de altitude e a chuva traz humidade e frio. No entanto, há agitação devido ao comércio, um verde que permeia tudo, o trabalho assíduo das pessoas nos campos e uma efervescência de vida que provém de uma numerosa parte da população ser crianças e jovens. E algo novo para mim, a invasão dos motociclistas, a que chamam motards. As motos tornaram-se o meio de transporte mais comum, uma vez que não existem autocarros ou táxis. Transportam tudo, desde famílias inteiras de quatro membros a meia dúzia de sacos de arroz, desde lenha para a cozinha até vigas para construções. A maioria dos carros são particulares e têm o volante à direita, um sinal de que a vida económica de Butembo tende mais para o Uganda do que para a capital, Kinshasa.

Não sei se o suaíli que em tempos falei fluentemente voltará aos meus lábios, ou se o kinande, tão semelhante ao kirundi que aprendi no Burundi, se fixará na minha memória de missionário ancião. Além disso, conseguirei habituar-me a este clima e cultura?

E que trabalho vou fazer? O bispo quer que eu substitua o meu colega, o padre Gaspar, na animação missionária da diocese, que tem mais de 90 paróquias, algumas das quais em zonas de conflito. Possivelmente, darei uma mão na pastoral universitária. Trabalho não me faltará! Agradeço ao Deus da vida que me deu o gosto pela missão e a coragem de virar a página novamente e vir até estas terras africanas partilhar o perfume do Evangelho.   

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EDIÇÃO
Julho 2022 - nº 726
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