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19 julho 2019

Filho único, mas nunca sozinho

Tempo de leitura: 6 min
Jemboy Caspis, natural das Filipinas, é um jovem comboniano. Teve dificuldades para realizar o seu sonho missionário, mas hoje ele e a família estão felizes com a sua vocação.
Jemboy Caspis
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Nasci em 1984, em Sulop, província de Davao del Sur, na ilha de Mindanau, Sul das Filipinas, mas cresci na cidade de General Santos, antes conhecida como Dadiangas.

Estudei na Universidade de Notre Dame de Dadiangas, instituição católica dirigida pelos Irmãos Maristas. Fiz a licenciatura em Educação como trabalhador-estudante. Trabalhava cinco horas de manhã e, depois, corria para as aulas na universidade. As coisas melhoraram um pouco quando consegui trabalho como estudante assistente de um professor na minha universidade.

No decurso do segundo ano, os meus amigos convidaram-me para participar no acampamento «Vem e vê», uma iniciativa dos Franciscanos Capuchinhos. O folheto que me entregaram falava de «uma viagem para descobrir a vocação específica da vida». Durante um ano, passei com eles todos os fins-de-semana a orar e a pensar na vocação ao sacerdócio.

Esta ideia atraiu-me. O problema era como dizê-lo aos meus pais. De alguma maneira, já suspeitavam. Quando lhes deixei antever que podia tornar-me sacerdote, reagiram negativamente: «O que nos acontecerá? És o nosso único filho! Como podes deixar-nos sós?» A dor que vi nos seus olhos quase me paralisou e decidi deixar de lado a ideia e concentrar-me nos estudos.

 

Vocação missionária

Eu tinha deixado Deus de fora, mas Ele nunca deixa as coisas por terminar. Assim, quando estava a ponto de concluir a universidade, visitou-nos um jovem sacerdote filipino dos Missionários Combonianos, que trabalhava como animador vocacional. Mal o vi, o antigo desejo que jazia congelado na minha mente reavivou-se. Quando ele me ofereceu a possibilidade de participar num retiro, sem hesitar, disse-lhe que ia.

O retiro alegrou-me. Participei em outros encontros. Todavia, depois de me graduar, decidi esperar mais uma vez. Durante um ano, trabalhei como professor numa escola do ensino básico. E gostava, mas o chamamento para ser missionário tornava-se cada vez mais forte.

Um dia, ao regressar da escola, mostrei aos meus pais a carta com que havia rescindido o contrato. «Devo responder à minha vocação. Quero entrar no Postulantado dos Missionários Combonianos», comuniquei-lhes. Surpreendentemente, o meu pai disse: «Choraremos quando fores, mas podes ir com a nossa bênção. Lembra-te apenas de ser firme e forte. Apoiar-te-emos sempre.»

A partir de então, a minha vida transcorreu suavemente. Fiz dois anos de formação em Manila. Em seguida, fiz o noviciado no México. Em 2012, regressei às Filipinas para a primeira consagração religiosa e uma semana depois, recebi a carta que me enviava para a fase seguinte da formação, o Escolasticado. Em Agosto daquele ano, cheguei a solo africano cheio de entusiasmo e ansioso por começar o estudo da Teologia.

Os primeiros três meses no Quénia foram um desafio. Tive de me adaptar à nova cultura. Senti, inclusive, saudades das comodidades e do estilo de vida da minha casa. No entanto, aprendi depressa a amar a nova comunidade e a desfrutar da internacionalidade que a caracterizava.

 

Realizar o sonho

O verdadeiro momento mágico aconteceu durante as primeiras férias académicas. Fui a Cacheliba, uma missão comboniana entre os Pokots, no Norte do Quénia. Não falava uma única palavra de quissuaíli ou pokot; mesmo assim, foi possível partilhar a minha vida com as pessoas. O que realmente conta nas relações humanas é demonstrar atenção pelos outros. Durante os quatro anos do curso teológico, passei as férias com os Pokots, que se tornaram o «meu povo» e eu tornei-me seu amigo. A experiência de ser esperado era de uma beleza indescritível.

Depois de concluir a Teologia, fui para Cacheliba em experiência missionária durante um ano. Já me desenrascava com o quissuaíli. A comunicação era possível. Pude descobrir a assombrosa simplicidade deste grupo étnico e o seu bondoso coração. No dia 7 de Abril de 2017, na igreja de Cacheliba, fui ordenado diácono. E, de seguida, regressei à minha terra para a ordenação sacerdotal.

A igreja paroquial estava a abarrotar. O bispo D. Dinualdo Gutiérrez estava acompanhado por mais de 30 sacerdotes, missionários combonianos, de outras congregações e diocesanos. Os meus pais não cabiam em si de contentes. Eu sentia-me na antecâmara do Paraíso. Tinha realizado o meu sonho. Deslumbrava-me o imenso amor com que Deus me havia presenteado.

Desde 2018, estou no Quénia entre os Pokots. Não quero ser ninguém especial. Apenas quero ser fiel ao chamamento de Deus que fui escutando desde que era criança.

 

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EDIÇÃO
Outubro 2019 - nº 695
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