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27 novembro 2019

Florescer os talentos

Tempo de leitura: 10 min
A Casa dos Talentos, localizada num bairro da periferia de Lima, capital do Peru, ajuda crianças, jovens e adultos a conhecer e desenvolver os seus dons artísticos e profissionais e, assim, sonhar com uma vida melhor e mais feliz.
Bernardino Frutuoso
Director
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O ar frio e húmido penetra nos nossos ossos enquanto caminhamos pelos poeirentos caminhos de areia e terra batida no bairro de São Genaro, localizado no município de Chorrilhos, na periferia de Lima, a capital do Peru. A beleza do oceano Pacífico, que com as suas águas fustiga suavemente as pequenas formações rochosas da costa e nos embala com o som das suas ondas, não nos alheia do ambiente de pobreza que nos envolve. Estes bairros, que começaram a surgir na década de 1990, foram construídos pelos deslocados rurais que fugiam da violência provocada pelo grupo guerrilheiro Sendero Luminoso, cresceram e desenvolveram-se. Agora vêem-se casas bem construídas, ruas asfaltadas, negócios de todo o tipo e serviços públicos. No entanto, persiste o aspecto agreste e triste do bairro e o ambiente de pobreza, que o clima invernal, cinzento e triste, apenas acentua.

Nas últimas décadas, o fluxo de imigrantes não se deteve e ainda hoje em dia são milhares as pessoas que deixam as zonas rurais, onde a pobreza é mais acentuada, e se deslocam para a capital peruana. Esperam encontrar novas oportunidades e uma vida melhor. Nos últimos anos, aos peruanos juntaram-se os refugiados e migrantes que chegam da Venezuela (em Junho de 2019, tinham entrado no Peru 768 148 venezuelanos, segundo as estimativas da Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados). Algumas destas pessoas acabam por alojar-se nos bairros da periferia e, em consequência, estes assentamentos humanos continuam a expandir-se, conquistando os picos mais altos dessas formações montanhosas de pedra e areia. Ao longo das vielas que percorremos vêem-se conjuntos desordenados de pequenas construções que cada pessoa ou família levanta, pouco a pouco, com os meios que tem disponíveis. Nos bairros mais recentes ainda não existe nenhum tipo de serviços básicos, seja água potável, saneamento ou electricidade. As pequenas casas vislumbram-se ao longe e perdem-se entre o denso e frio nevoeiro que as envolve.

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EDIÇÃO
Dezembro 2019 - nº 697
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