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20 janeiro 2020

O lugar do “eu” na vocação

Tempo de leitura: 9 min
O discernimento vocacional é um caminho que nos permite descobrir a nossa vocação, que é dom de Deus em nós, para nós e o mundo em que vivemos.
Susana Vilas Boas
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«Como se vive a juventude, quando nos deixamos iluminar e transformar pelo grande anúncio do Evangelho?» (Cristo Vive, n.º 134). Esta é uma questão pertinente que o Papa Francisco não deixa de fazer, reafirmando a necessidade de acolher a juventude como dom e graça, não como fardo ou tempo para desperdiçar, dizendo mesmo que «apreciar a juventude significa considerar este período da vida como um momento precioso, e não como uma fase de passagem onde os jovens se sentem empurrados para a idade adulta» (Cristo Vive, n.º 135). Este é um tempo de descoberta, mas é também um tempo de vida, em que o presente se faz de acções concretas que ora perpetuam a nossa adolescência (como se nos recusássemos a crescer) ora nos impelem para a vida adulta; mas que, simultaneamente, apresentam as marcas do nosso “ser jovem”.

Este tempo – que não é de passagem, mas de vida verdadeira – assusta-nos. Somos chamados a tomar uma série de decisões que rompem com a infância e que, de algum modo, comprometem a vida futura. Isto acontece ao nível escolar, ao nível familiar e até ao nível das nossas relações de amizade. Do mesmo modo, este é o tempo no qual somos chamados a deixar de viver de ilusões, para começar a viver o sonho que sonhamos para nós. Contudo, aí começam os problemas: por um lado, a ideia de que se fizermos opções concretas, comprometemos o futuro, podendo isso trazer-nos problemas, ou mesmo bloquear outras possibilidades; por outro lado, a ideia de fazer um discernimento sério e acompanhado, em que Cristo faz parte do caminho, leva-nos a pensar que acabaremos diluídos num emaranhado religioso que nada tem que ver connosco. Afinal, queremos ser nós mesmos! Queremos viver os nossos sonhos! Não negamos Deus, mas queremos a nossa realização pessoal! Que fazer? Como viver a juventude libertos destes medos? 

Do medo de falhar ao medo… de acertar!

O medo nunca é bom conselheiro! Não devemos confundi-lo com a prudência, mas há que fugir dos seus avanços de nos paralisar face ao futuro. O medo de errarmos corrói a nossa juventude, desperdiça-a com futilidades ocas que nos fazem perder credibilidade perante nós mesmos e perante a sociedade. Contudo, muitas vezes, a este medo está subjacente um outro: e se os passos que dermos rumo aos nossos sonhos derem certo? E se entrarmos num caminho assertivo de discernimento vocacional? O medo de “acertar” está também patente nos nossos dias. Como se, de algum modo, a vocação nos engolisse e nos impedisse de sermos quem somos, isto é, como se a vivência da vocação só fosse possível se nos transformássemos noutra pessoa. Pois é… se assim fosse, não estaríamos a falar de verdadeira vocação nem de vida em Deus! Tiremos daí os nossos medos! Deixemos de usá-los como desculpa para não pormos os pés ao caminho!

«O amor de Deus e a nossa relação com Cristo vivo não nos impedem de sonhar, não nos pedem para restringir os nossos horizontes. Pelo contrário, esse amor instiga-nos, estimula-nos, lança-nos para uma vida melhor e mais bela» (Cristo Vive, n.º 138). Nada há a temer! Em Deus tudo é possível e, por isso mesmo, Ele dirige-se à juventude, dizendo: «Levanta-te!» (Mc 5,41). Quem é jovem não fica parado, nem permite que a sua vida fique estagnada ou seja vivida ao sabor do vento! «Levanta-te!». O “eu” que te habita não tem de desaparecer! Está em crescimento! A desabrochar para o mundo e para a sua própria realização. 

Os desafios do “eu”

O maior desafio do “eu” é, efectivamente, deixar-se ser “eu”. Parece simples dito desta forma, mas quando estamos bloqueados pela ideia de que o “eu” é tudo (sem ter de haver escolhas, nem fazer opções), só conseguimos definhar até a um nada que não tem sentido nem razão de ser. Não podemos ser uma coisa e o seu contrário ao mesmo tempo! O discernimento vocacional pauta-se, precisamente, por esta descoberta do que somos, pois aqui estão os alicerces que nos permitem descobrir, com autenticidade, o que queremos ser.

Neste crescimento e concretização de um «caminho de sonho embebido de realidade e vida», temos a força que caracteriza a nossa juventude: a ousadia! Uma irreverência que queremos usar positivamente – não para ser do contra a tudo o que nos dizem, mas para ousar caminhar rumo àquilo que dá sentido e fundamenta a nossa existência.

Esta ousadia só é possível concretizar quando é acompanhada por alguém que nos ajuda a seguir em frente, mas manter os pés assentes na terra! Não podemos continuar no reino infantil da fantasia! Há que percorrer o caminho que nos leva a determinada meta: sem perder o foco, sem negar as dificuldades e, sobretudo, sem deixar de ter Cristo como companheiro de jornada – com Ele e n’Ele tudo é possível! 

A vocação: viver o “eu” e além do “eu”

Olhar a vocação como algo que existe fora de nós e à qual podemos (e, talvez, até devemos!) dar guarida é perverter a própria vocação. Temos de purificar o nosso olhar quando olhamos para ela. A vocação não é “uma coisa” nem um caminho que existe fora de nós e que, devagar, vamos aceitando em “entre em nós” e paute a nossa vida!

A vocação é dom de Deus em nós! Como uma semente adormecida, ela já existe dentro de nós, pelo que o caminho vocacional é inverso àquele que, muitas vezes, pensamos: a vocação não é vivida através de um percurso “de fora para dentro”, mas “de dentro para fora”! Isto significa que o discernimento vocacional assenta em dois aspectos fundamentais: o primeiro, direccionado ao “eu”, visa responder às perguntas: onde está a “semente”? Que tipo de “semente” é? (sim, porque não podemos esperar colher bananas, se lançamos à terra uma semente de girassol!). O segundo aspecto do discernimento é direccionado ao “nós”, isto é, à movimentação para “fora” do nosso mundinho isolado. A vocação é dom em nós, para nós e com o mundo em que vivemos.

Pensemos na metamorfose das lagartas. O seu “eu” não passa de um verme rastejante? Nada disso! Elas até podem viver como se assim fosse, mas, na sua juventude, elas ousam viver “um discernimento”: passam um tempo encerradas em si mesmas, numa procura sufocante por aquilo que são. Depois, ousam “sair”, vencer os medos e viver com a restante Criação. O resultado, conhecemo-lo: tornam-se belíssimas borboletas! Deixam para trás a ideia de um “eu rastejante”, para viver um “eu capaz de voar”! Trata-se apenas de uma analogia, mas, se pensarmos bem: porque voam as lagartas? Por dom de Deus! Porque o “eu” inicial está sempre em crescimento e em profunda descoberta! Porque a coragem de sair de si mesmas, as leva a ser elas mesmas, além de quanto imaginaram! Talvez até fosse um “sonho voar”, mas Deus permite que esse sonho esteja envolto em beleza!

O nosso ser jovem é a vivência plena de um caminho. Não tenhamos medo de errar nem de sufocar durante o processo! Não estamos sós! Deus caminha connosco e coloca ao alcance do nosso conhecimento pessoas que nos acompanham no caminhar! Ousemos viver este tempo! «A vossa vida não é «entretanto»; vós sois o agora de Deus, que vos quer fecundos. Porque é dando que se recebe, e a melhor maneira de preparar um bom futuro é viver bem o presente, com dedicação e generosidade» (Cristo Vive, n.º 178). 

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EDIÇÃO
Fevereiro 2020 - nº 699
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