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13 fevereiro 2020

As linguagens do discernimento

Tempo de leitura: 9 min
A vocação é uma prenda de Deus que nos revela a nossa autenticidade. Nesse caminho de autodescoberta e discernimento, a escuta, o diálogo e o acompanhamento são elementos fundamentais.
Susana Vilas Boas
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Por estes dias, alguém me perguntava sobre a pertinência de escrever sobre a vocação. «Não é sempre a mesma coisa?» «Não se sabe já que cada pessoa tem uma vocação específica e que só a realizando se alcança a verdadeira felicidade?» Estas eram as perguntas fundamentais que iam sendo repetidas ao longo do diálogo. Estas são também as perguntas que, muitas vezes, levam a fugir da questão fundamental sobre a vocação – a questão que é dirigida a cada um de nós. Isto é, a interpelação vocacional que devemos discernir e à qual temos de dar resposta no concreto (não apenas por meio de teorizações).

Existe um aspecto comum a toda a vocação. Como afirma o Papa Francisco, ela é «uma prenda de Deus». Ora, quando oferecemos uma prenda a um verdadeiro amigo, não procuramos dar-lhe algo de que nós gostamos, mas algo que realmente fará o nosso amigo feliz. Esta é a forma como Deus nos presenteia. Afirma o papa que Deus te oferece «um carisma que te fará viver plenamente a tua vida transformando-te numa pessoa útil aos outros, em alguém que deixa uma marca na História, será certamente algo que te deixará feliz no mais íntimo de ti mesmo e te entusiasmará mais do que qualquer outra coisa neste mundo» (Cristo Vive, n.º 288). Contudo, embora esta seja a essência de toda a vocação, não podemos afirmar que ela «é sempre a mesma coisa». Porquê? Porque nós também não somos sempre a mesma coisa!

A vocação não é um superpoder recebido que nos transforma em algo diferente daquilo que somos. A vocação é antes reveladora da nossa autenticidade, daquilo que verdadeiramente somos. Por isso, desde o início do chamamento – desde a entrega do dom – Deus vai procurando diferentes modos de nos fazer chegar a ele e de o recebermos. Por exemplo, pensemos no momento de dar uma prenda a alguém. Para algumas pessoas, o surpreendente será mesmo entregar-lhe o presente em mãos. Mas, tratando-se de um presente valioso que pensamos que o nosso amigo se sentirá plenamente feliz ao recebê-lo (e quase “sem jeito” perante tão grandiosa dádiva), para maior surpresa e para evitar constrangimentos, podemos deixar o presente em algum sítio, de modo que o nosso amigo o vá descobrir sozinho. Podemos, ainda, fazer uma espécie de caça ao tesouro para um crescente de expectativa e maior satisfação no encontro. Muitas são as formas de dar um presente e Deus, porque nos conhece bem, sabe qual nos tornará mais felizes e mais capazes de acolher/receber o dom oferecido.

Escuta e acompanhamento

São muitas as linguagens de Deus e, consequentemente, as linguagens do discernimento vocacional. Deus encontrou um modo de se comunicar connosco – um modo único que, por vezes, nos incomoda – Ele comunica através das outras pessoas! Pois é... mas, como saber quem nos poderá ajudar a discernir? Estará alguém à altura de nos compreender verdadeiramente?

Estas são perguntas que vamos fazendo e que vão adiando a nossa vida. De facto, se queremos alcançar esse presente de Deus, temos de fazer alguma coisa no tempo presente. Sabemos, no nosso íntimo, o que “gostaríamos de ser” e conhecemos pessoas que trilharam um caminho algo similar ao nosso e que estão hoje plenamente realizadas e a viver a sua vocação. No entanto, custa-nos arriscar um diálogo e um caminho de acompanhamento. Não porque duvidamos que Deus possa falar-nos através dessa pessoa, mas porque temos medo de ouvir o que não queremos! Enquanto for o medo a comandar a nossa vida, nem o que somos verdadeiramente se realizará nem Deus terá hipótese de agir.

Deixai-me dar-vos um exemplo pessoal muito prático. Quando estou a realizar as minhas investigações académicas para algum trabalho, uma das primeiras coisas que faço é procurar falar com alguém sobre o tema que estou a trabalhar. Primeiro, escolho falar com alguém credível, com mais conhecimentos do que eu sobre o assunto e que, mais ou menos, sei que tem uma linha de pensamento similar à minha. Porém, depois lanço-me no diálogo com alguém que pensa de um modo bem diferente do meu. Neste diálogo sou confrontada com as fraquezas dos meus argumentos e, ao tentar responder às questões formuladas, vou descobrindo o meu próprio caminho, o meu modo de abordar e pensar determinado assunto. No final, sou capaz de produzir algo que não é o pensamento de nenhuma das pessoas com quem falei, mas algo meu, algo que resulta de um caminho/discernimento pessoal.

De modo similar, com a escuta e o acompanhamento vocacional, vivemos acompanhados por alguém credível que, no seu exercício de acompanhamento, nos vai confrontando e pondo à prova. Não porque nos quer tramar, mas porque nos quer levar a um caminho autêntico – um caminho onde a vocação não é um capricho, mas é o resultado deste encontro entre nós e Deus.

Discernir o ponto de encontro entre o meu sonho e o sonho de Deus

Às vezes estamos tão autocentrados e tão obcecados por uma ideia, que ficamos cegos perante nós mesmos e a realidade que nos envolve! Às vezes, o que sonhamos para nós não é assim tão distante do nosso caminho vocacional, mas o facto de caminharmos sozinhos leva-nos a olhar esse caminho de modo enviesado e, pouco a pouco, de modo egoísta e caprichoso. Deus surpreende sempre! Não devemos, por isso mesmo, negar-nos a viver e a descobrir a surpresa de Deus. Nós olhamos o presente, muitas vezes, cinzento, e o futuro torna-se algo difícil marcado apenas pelo preto e branco ou, então, apesar do cinzento de hoje, vivemos a ilusão de um futuro cor-de-rosa... Deus deu-nos o arco-íris. N’Ele, o presente ganha novas cores e o futuro em Deus nunca tem apenas uma tonalidade!

Deus não rejeita os nossos sonhos, antes, eleva-os a uma plenitude que não podemos sequer pensar ou imaginar (Ef 3,20). O sonho de Deus para nós não vai ao encontro dos nossos caprichos, mas está sempre de acordo com a autenticidade do nosso ser. Ele não responde ao que queremos, mas ao que somos e queremos ser. Ele não está à altura do que desejamos, antes, leva-nos sempre mais longe.

“Sair da rotunda”

O medo bloqueia-nos, deixa-nos à deriva, impede-nos de avançar. O medo esconde-se na ilusão do não ter medo, arranjando desculpas para a nossa inacção. Facilmente, apesar de jovens, tornamo-nos velhos resignados perante as circunstâncias da vida. O nosso discurso sobre a vocação fica reduzido a um eterno lamuriar: «Eu queria... mas...» Em Deus tudo é possível (Fil 4,13)! N’Ele não há “mas”! A realidade é aquela que é, com as suas dificuldades e desafios. Mas, como já vimos, não temos de vencer os obstáculos sozinhos! Estamos acompanhados também na procura de soluções para as quais não temos respostas por nós mesmos. Não será o nosso medo egoísta que nos impede de avançar? Não será o nosso medo de arriscar a felicidade que nos impede de sair da rotunda do “eu queria..., mas...”? Não será o nosso medo de não sermos super-heróis que nos leva a não pedir ajuda?

Fica o apelo de Francisco: «Amigos, não espereis pelo dia de amanhã para colaborar na transformação do mundo com a vossa energia, audácia e criatividade. A vossa vida não é “entretanto”; vós sois o agora de Deus» (Cristo Vive, n.º 178).   

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Abril 2020 - nº 701
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