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05 março 2020

Vocação: Interpretar, reconhecer, escolher

Tempo de leitura: 9 min
No caminho de descoberta e discernimento vocacional é fundamental desenvolver processos de questionamento, interpretação, reconhecimento e escolha.
Susana Vilas Boas
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No caminho de descoberta e discernimento vocacional, muitas vezes, somos tentados a pensar que tudo se resume ao encontrar de respostas essenciais para a nossa vida; respostas estas que funcionarão como soluções mágicas para todos os problemas presentes e futuros. Esta ânsia de respostas coloca-nos no mundo da ilusão, num estado em que a própria felicidade se torna ilusória e desprovida de possibilidade de realização concreta no aqui e agora da nossa vida. Pouco a pouco devemos perceber que o discernimento vocacional se faz, mais do que alicerçado em respostas, através de perguntas fundamentais para a nossa existência. Estas perguntas estão longe de se centrar em caprichos egoístas e/ou em problemas hipotéticos de futuro. Por isso mesmo, alerta o Papa Francisco: «Não se deve começar por questionar onde se poderia ganhar mais dinheiro, onde se poderia obter mais fama e prestígio social, mas também não se deveria começar perguntando que tarefas nos dariam mais prazer. Para não se enganar, é preciso mudar de perspectiva, perguntando: conheço-me a mim mesmo, além das aparências ou das minhas sensações? Sei o que alegra ou entristece o meu coração? Quais são os meus pontos fortes e as minhas fragilidades? E, logo a seguir, vêm outras perguntas: como posso servir melhor e ser mais útil ao mundo e à Igreja? Qual é o meu lugar nesta Terra? Que poderia eu oferecer à sociedade? E surgem imediatamente outras muito realistas: tenho as capacidades necessárias para prestar este serviço? Em caso negativo, poderei adquiri-las e desenvolvê-las?» (Cristo Vive, n.º 285).

Este é um turbilhão de perguntas que devem ser tidas em consideração, sabendo, porém, que não encontraremos respostas fáceis, objectivas, “certificadas”. É no questionar que se abrem caminhos de resposta. Caminhos, estes, que não se compadecem com a realidade que vivemos e que, por isso mesmo, tornam possível pensar e percorrer caminhos rumo à realização pessoal e à felicidade de modo concreto e concretizável, em vez de andar sempre em círculos em busca de algo ilusório e idílico.

Interpretar

Os caminhos de resposta vão surgindo de variadíssimas formas. É preciso saber interpretar aquilo que vamos sentindo e vivendo. Deus fala de muitas maneiras e dá-nos a capacidade de interpretar aquilo que nos diz. No entanto, Deus criou-nos, não como seres isolados, unicamente à mercê do nosso pensar (tantas vezes ofuscado pelo nosso orgulho e pelos nossos desejos egoístas), mas como seres em relação com os outros. Nesse sentido, a interpretação dos sinais dos tempos não pode realizar-se de modo individual. Esta conta com a colaboração e verdadeiro auxílio daqueles que caminham connosco, de modo próximo e especial, no caminho de discernir a vocação.

Interpretar é, antes de tudo, um caminho de humildade no qual nos colocamos com sinceridade, na certeza de que não sabemos tudo nem somos capazes de fazer tudo sozinhos. Porém, também não nos podemos descartar da nossa responsabilidade. Antes, devemos procurar quem nos ajude a ver mais longe e mais profundamente aquilo que somos e aquilo que desejamos verdadeiramente ser.

Reconhecer

Importa ter presente que, se a interpretação se faz de modo acompanhado e com a responsabilidade de não bloquear aquilo que se vê (uma vez que a primeira tentação é ver o que se quer e nada mais do que isso), o reconhecimento vocacional acontece de modo muito pessoal. Não se trata de um processo individual, mas pessoal! O “individual” pressupõe uma autonomia que entra em ruptura com a nossa dimensão relacional. O que é “pessoal” tem em conta todo o nosso ser, todas as nossas dimensões e, por isso mesmo, o reconhecer da vocação não pode ser mutilador, antes, apesar de não ser um processo fácil, deve ser libertador e cheio de autenticidade. Por outro lado, importa não esquecer que pensar que outros devem fazer isto por nós é ficar estagnado no caminho! De facto, «uma expressão do discernimento é o esforço por reconhecer a própria vocação. É uma tarefa que requer espaços de solidão e silêncio, porque se trata de uma decisão muito pessoal que mais ninguém pode tomar no nosso lugar» (Cristo Vive, n.º 283).

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O reconhecer da vocação é um ir além das vontades passageiras: é ousar olhar a felicidade de frente, com autenticidade, para lá de todas as dificuldades e entraves que possam associar-se a esta vocação. Pode tornar-se algo assustador este reconhecimento, mas é necessário que este aconteça para lá das circunstâncias. Isto é, no momento de reconhecer o importante é a vocação em si e aquele que a discerne. Neste momento, pensar nas dificuldades e obstáculos apenas bloqueia o processo e paralisa toda a nossa esperança e desejo de futuro. No momento de reconhecer – reconhece! Primeiro, para ti mesmo, diante de Deus. Depois, verbaliza esse reconhecimento àqueles que te acompanham no discernimento vocacional. Pouco a pouco, o reconhecer torna-se parte de ti e os desafios à vocação conseguem ser enfrentados com outra força, perspectivas e possibilidades.

Escolher

O “reconhecer” não resolve, por si só, todas as dificuldades pessoais e do mundo que nos circunda e que, muitas vezes, parece obstaculizar a nossa vivência plena da vocação. Por essa razão, importa ter presente que «para discernir a própria vocação, é preciso [também] reconhecer que a mesma é a chamada de um amigo: Jesus. Aos amigos, quando se dá uma prenda, oferece-se o melhor; isto não significa que seja necessariamente a prenda mais cara ou difícil de conseguir, mas a que – sabemos – dará alegria ao outro» (Cristo Vive, n.º 287). Este é o ponto de partida para um reconhecimento que é feito com maturidade e sem fatalismos a priori. Só assim se torna possível optar – escolher – se se vai dar passos concretos para continuar a descobrir e viver a vocação que nos realiza verdadeiramente ou se, apesar de tudo, preferimos seguir por outros caminhos que nos parecem “mais seguros”, mais fáceis ou mesmo mais aliciantes.

O interpretar os sinais que Deus nos dá de nada serve sem o reconhecer da vocação. Do mesmo modo, o reconhecer é vazio se não conduzir a uma escolha responsável e comprometedora. A dificuldade não estará nunca no escolher o “bem” ou o “mal”, mas o ser capaz de escolher o “melhor” ou o “óptimo” face ao “bom”. Sabemos que é o “melhor” que nos realiza, mas, muitas vezes, “o bom” parece-nos a escolha certa, ou porque o caminho até lá é mais fácil de articular com a nossa vida concreta, ou porque nos parece ser “o melhor” para a nossa família e amigos, ou porque, simplesmente, todas estas razões nos convencem que “o bom” é suficiente (ou, pelo menos, não é mau) para nós.

Escolher não é tarefa fácil, mas ela é sequência de uma interpretação e de um reconhecimento que não pode ser esquecido. Esta é uma escolha pessoal que, como no reconhecer, ninguém poderá fazer por nós, mas que pode – e deve! – ser acompanhada. Só com o acompanhamento é possível fazer face aos desafios e viver autenticamente essa escolha com responsabilidade e esperança, sem fatalismos nem desesperos.

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EDIÇÃO
Julho 2020 - nº 704
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