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07 maio 2020

O mundo pós-pandemia

Tempo de leitura: 6 min
Os grandes eventos globais, como guerras, crises económicas e pandemias, aprofundam e aceleram tendências já existentes. A actual fragilidade global marca o fim ou o início de uma era. O futuro depende da compreensão e posicionamento da sociedade civil.
Carlos Reis
Jornalista
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Uma contingência pode ser o catalisador de um novo mundo, ao alterar conjuntamente as realidades sociais, económicas e ambientais, garantias do desenvolvimento sustentável à escala global. Ainda sem o distanciamento histórico necessário, parecem revelar-se duas advertências imediatas: a Natureza é maior do que o Homem e as sociedades devem ser orientadas pelo bem comum.

Tanto a pandemia quanto a mudança climática e as desigualdades sociais destacam a necessidade de uma cooperação internacional voltada para o futuro e capaz de gerir ameaças mundiais. Cidadãos e líderes institucionais e políticos deverão colocar a realidade em primeiro lugar e optar por uma abordagem solidária, com as políticas comunitárias a prevalecerem. A comunidade global existe, pelo que, num mundo interconectado, a dependência é mútua. São necessárias soluções coordenadas, o que requer um investimento em organizações multilaterais internacionais.

Para atingir este nível de cooperação, é necessária confiança. O historiador israelita Yuval Noah Harari aponta que «nos últimos anos, políticos irresponsáveis minaram deliberadamente a confiança». Agora, «em vez de se construir um regime de vigilância, é necessário confiar na ciência, nas autoridades públicas e nos media», preconiza.

As decisões políticas baseadas na ciência são o caminho racional e útil a seguir. A saúde é um bem público, uma questão de segurança internacional e de prosperidade económica das nações. Instituições democráticas que funcionem transparentemente são vitais para as nossas sociedades, assim como políticas públicas que concentrem os esforços nos mais vulneráveis da população.

Doravante, diferente

A superpopulação humana concentrada em megacidades, o consumo desenfreado e o turismo massivo, aliados a viagens aéreas constantes, redes de fornecimento a milhares de quilómetros e a extrema desigualdade na divisão da riqueza e nos sistemas de saúde públicos deixaram expostas as fragilidades das sociedades.

Robert Shiller, Nobel de Economia 2013, prevê que «um efeito a longo prazo da pandemia pode ser instituições económicas e políticas mais redistributivas e com maior preocupação pelos marginalizados sociais e idosos». O conceito de segurança nacional incluiria a redistribuição da riqueza, uma fiscalidade mais justa e o reforço do Estado de bem-estar.

Já Yuval Noah Harari aponta que a humanidade precisa de fazer uma escolha. «Se escolhermos a desunião, isso não apenas prolongará a crise, mas provavelmente resultará em catástrofes ainda piores no futuro. Se escolhermos a solidariedade global, será uma vitória contra todas as futuras epidemias e crises que possam assaltar a humanidade no século xxi», avança o autor de 21 Lições para o Século xxi (Elsinore, 2018).

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Um fornecedor carrega legumes num mercado de Díli, Timor-Leste (Foto Lusa)

Fazer as instituições democráticas funcionarem é um investimento na saúde, na segurança e nas liberdades e direitos sociais. Quando pagamos pela fraqueza dos nossos sistemas de saúde, de protecção social e dos serviços públicos, «não podemos simplesmente voltar ao que era antes, com sociedades desnecessariamente vulneráveis a crises. Agora é o tempo de redobrar os nossos esforços para construir economias e sociedades mais inclusivas e sustentáveis, que sejam mais resilientes face às pandemias, às alterações climáticas e aos outros desafios globais», defende por sua vez o secretário-geral das Nações Unidas. Para António Guterres, «a recuperação deve conduzir a uma economia diferente. O nosso plano continua a ser o que está nos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável».

Vírus do egoísmo

O Papa Francisco pede que na era pós-pandemia ninguém fique para trás. «A misericórdia não abandona quem fica para trás. Agora, enquanto pensamos numa recuperação lenta e trabalhosa da pandemia, é precisamente este perigo que se insinua: esquecer quem ficou para trás. O risco é que nos atinja um vírus ainda pior: o do egoísmo indiferente», afirmou.

O Santo Padre alertou para o descarte dos mais pobres e frágeis, como se a vida apenas melhorasse quando corre bem apenas para si próprio: «Chega-se a seleccionar as pessoas, a descartar os pobres, a imolar no altar do progresso quem fica para trás. Esta pandemia, porém, lembra-nos que não há diferenças nem fronteiras entre aqueles que sofrem. Somos todos frágeis, todos iguais, todos preciosos.»

Francisco sublinhou que é necessário aproveitar esta «prova como uma oportunidade para preparar o amanhã de todos. Sem descartar ninguém, porque, sem uma visão de conjunto, não haverá futuro para ninguém», concluiu o pontífice.

 

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Julho 2020 - nº 704
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