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04 junho 2020

Trump na era da incerteza

Tempo de leitura: 10 min
Nos EUA, onde a pandemia já duplicou em número os mortos da guerra do Vietname, mantem-se um clima de elevada tensão racial e confrontos sociais na sequência da morte de George Floyd. Pela primeira vez, a poucos meses das eleições de Novembro, o Presidente Trump enfrenta sérias contrariedades.
Paolo Moiola
Jornalista
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Na segunda-feira, 1 de Junho, Donald Trump fez um discurso no Jardim das Rosas da Casa Branca (repleto de retórica, obviedades e verdadeiras ameaças), em que falou dos protestos em massa que se têm realizado de Leste a Oeste do país, na sequência do assassinato de George Floyd. Em seguida, saiu da residência presidencial e dirigiu-se em direcção à igreja episcopal de São João, através da Praça Lafayette. Percorreu, no total, uns 100 metros. Como tem sucedido nos últimos dias em mais de 140 cidades norte-americanas, também ali se reuniu um pequeno grupo de pessoas, que protestavam contra a brutalidade policial e pediam justiça para George Floyd. Manifestavam-se, mas de modo absolutamente pacífico. No entanto, para limpar a área e permitir que Trump se deslocasse, as forças policiais (com escudos antimotim e a cavalo) intervieram com disparos de granadas de gás lacrimogéneo e balas de borracha e expulsaram, à força, os manifestantes. «Existe, muitas vezes, uma linha ténue entre a tirania e o ridículo. A mini marcha de Trump pela Praça Lafayette foi, simultaneamente, um dos momentos mais bizarros e mais arrepiantes da moderna História presidencial americana» – referiu a CNN (2 de Junho).

 

trump_bibliaTrump no santuário erigido em Washington em honra de S. João Paulo II (Foto: Lusa)

 

Chegado em frente da Igreja de São João, rodeado pelas escoltas e assessores (todos brancos e sem máscaras, como se percebia), o presidente deteve-se em frente da fachada da igreja e ergueu para o céu a Bíblia, que tinha na mão. Sem abri-la. Tudo em frente das câmaras. Um comportamento que deixou irritada Mariann Edgar Budde, bispo responsável pela Diocese Episcopal de Washington: «Não acredito no que os meus olhos viram esta noite. Sejamos claros, o presidente usou a Bíblia e uma das igrejas da minha diocese, sem autorização, como pano de fundo para uma mensagem contrária aos ensinamentos de Jesus e a tudo o que as nossas igrejas representam». Trump – mencionou a revista The New Yorker a 2 de Junho – «aglutinou uma série de símbolos que, como ele sabe, têm poder sobre os outros: a Bíblia, as armas e o escudo».

Alegações imediatamente confirmadas pelo seu comportamento. No dia seguinte à foto realizada em frente da fachada da Igreja Episcopal, o presidente visitou a Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição, em Washington DC, dedicado a São João Paulo II. Também ali, se comportou como se estivesse numa passarela. Pousou para as câmaras em frente da estátua do papa polaco, não com a Bíblia e os assessores, mas com a sua esposa Melania. Mais uma vez, irritou os responsáveis. D. Wilton Daniel Gregory, arcebispo metropolitano de Washington (um americano negro), criticou a visita presidencial e falou de abuso e manipulação.

Trump_JPIIDonald Trump e Melania Trump estiveram presentes no memorial de João Paulo II, em Washington. Uma presença que membros da Igreja Católica norte-americana apelidaram de aproveitamento político (Foto: Lusa)

 

A propósito, vale a pena recordar que este uso instrumental de símbolos religiosos – a Bíblia, o rosário, o crucifixo, o presépio – tornou-se uma prática bem consolidada entre muitos políticos populistas e autoritários: do já referido Trump ao brasileiro Bolsonaro, da boliviana Añez ao húngaro Orbán, do russo Putin aos italianos Salvini e Meloni.

Faltam apenas alguns meses para as eleições de Novembro, e o presidente dos EUA está a recorrer a todos os estratagemas possíveis para garantir a base do seu apoio, uma vez que a sua gestão desastrosa da pandemia (morreram mais de 106 mil americanos, o dobro das vítimas da Guerra do Vietname), pôs em risco uma vitória que, no passado mês de Janeiro, se considerava garantida. A morte George Floyd (considerado «homicídio de segundo grau»), afro-americano, de 46 anos, desarmado, pela polícia de Mineápolis no passado dia 25 de Maio, ofereceu-lhe um novo “alvo”, relegando para segundo lugar as suas acusações diárias contra a China e a Organização Mundial de Saúde (OMS). Defectível (e muitas vezes ridículo) com o novo coronavírus e com a economia dos EUA a desacelerar, hoje Trump pretende ser reconhecido como o presidente «da lei e da ordem». No entanto, a propagação dos protestos – justificados quando pacíficos, mas sem ocasionar violência – está a tornar-se um problema extra para a administração republicana. Entretanto, Trump pressiona o poder estatal e municipal para que reponham a ordem e ameaçou mobilizar o exército dos Estados Unidos, para «dominar as ruas» e reprimir os protestos. Ideia que foi duramente criticada por Jim Mattis, general na reserva e ex-secretário da Defesa. Também o actual secretário, Mark T. Esper, e outros altos oficias do Pentágono, se opõem à mobilização do exército (3 de Junho).

Nos EUA, a questão racial tem 400 anos (os historiadores afirmam que emerge em 1619) e continua a ser um assunto extremamente sensível. Há 40 milhões de negros no país («americanos negros» melhor do que «afro-americanos»), que representam 13% da população total (Census Bureau, 2016). Os números dizem-nos que a população negra foi a mais afectada pela pandemia, tanto do ponto de vista da saúde, como do ponto de vista económico. Quanto à violência policial, o incidente de Mineápolis não é, infelizmente, uma novidade. Em 2019, a polícia norte-americana matou 1004 civis (outras fontes mencionam 1099). Dos mortos, 24% eram negros. Embora estes sejam – como acima referido – apenas 13% da população. 

No jogo de Trump, não podiam estar ausentes os meios de comunicação social norte-americanos. O presidente notou que a Fox News, o megafone televisivo ao seu serviço, embora poderoso, não é suficiente para propagar a sua retórica e o conjunto diário de mentiras (19 127 em 1226 dias, de acordo com o Washington Post, de 29 de Maio).

E não deixa de utilizar as redes sociais, especialmente o Twitter (7700 tuítes presidenciais durante 2019 e 1959 de 1 de Janeiro a 29 de Maio) e o Facebook. No entanto, a primeira plataforma começou (finalmente) a assinalar algumas das suas mensagens com alertas (sem as apagar): uma porque não estava verificada («o voto por e-mail – alegava – é fraudulento e as eleições serão manipuladas») e outra por «incitar à violência» («quando o saque começa, o tiroteio começa», tuíte de 29 de Maio). Muito menos corajoso foi o Facebook. O seu chefe executivo, Mark Zuckerberg, continua a defender a questionável liberdade de expressão do presidente (também para garantir os milhões de dólares que Trump gasta em publicidade nas redes sociais), mas suscitando descontentamento entre os seus funcionários.

protestos_USAMilhares de pessoas estão a sair às ruas nos Estados Unidos para protestar contra a brutalidade policial e pedindo justiça na sequência do assassinato de George Floyd (Foto: Lusa)

 

Entretanto, atingido no seu ego desmedido, Trump retaliou imediatamente ao emitir uma ordem executiva (a 28 de Maio) para condicionar a moderação do conteúdo publicado e a utilização de ferramentas de verificação de factos, ao responsabilizar as empresas que o fazem por todas as mensagens publicadas nas suas plataformas. O que é certo, no entanto, é que «para o presidente – comentou The Atlantic (29 de Maio) –, os alertas às suas mentiras são uma violação dos seus direitos de liberdade de expressão. Esta posição inverte o propósito da Primeira Emenda, transformando um direito individual de liberdade de expressão no direito do Estado a silenciar os seus críticos».

Em suma, o jogo para a vitória nas eleições de Novembro está a ser disputado em várias frentes e, agora, verifica-se um certo equilíbrio. No entanto, Donald Trump – certamente um dos piores presidentes da História dos EUA – ainda pode sair vencedor, apesar da pandemia e dos actuais protestos nas ruas. Uma perspectiva funesta (não só para os Estados Unidos), que parece reflectir-se nas palavras pessimistas da escritora negra Roxane Gay: «No final – escreveu no New York Times de 30 de Maio –, os médicos vão encontrar uma vacina contra o coronavírus, mas os negros continuarão a esperar, apesar da inutilidade da esperança, uma cura para o racismo. [...] O resto do mundo quer voltar ao normal. Para os negros, a normalidade é precisamente a coisa a partir da qual desejamos ser livres.»

 

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EDIÇÃO
Julho 2020 - nº 704
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