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20 outubro 2020

O enigma chinês

Tempo de leitura: 13 min
Aquele que foi o «Império Celestial» é agora um país-continente difícil de decifrar sem ter um conhecimento profundo. Dois livros recém-publicados podem ajudar-nos a olhar para além das acusações de hoje e dos estereótipos antigos. Porque com a China – gostemos ou não – todos temos de lidar.
Paolo Moiola
Jornalista
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Rua numa zona comercial de Pequim, China (Foto: Lusa)

De «fábrica do mundo» e «hub tecnológico» a «propagador global [do novo coronavírus]», «Big Brother [Grande irmão]», «Monstro»: é este o trajecto mediático da China neste ano de 2020. Nas análises e nos ecrãs de televisão, os julgamentos peremptórios e os adjectivos definitivos são muito utilizados porque são fáceis de perceber e não exigem grandes reflexões. A potência asiática, no entanto, é um mundo impossível de descrever recorrendo a categorias ocidentais.

Dois livros de jornalistas e estudiosos italianos que conhecem bem a China, para além dos estereótipos, acabam de chegar às livrarias (e às plataformas online). Trata-se das obras Una Cina “perfetta”. La Nuova era del Pcc tra ideologia e controllo sociale [Uma China “perfeita”. A Nova era do PCC ideologia e controlo social] escrito por Michelangelo Cocco (Carocci, 2020) e Red mirror. Il nostro futuro si scrive in Cina [Red mirror. O nosso futuro escreve-se na China] de Simone Pieranni (Laterza, 2020). Falámos (separadamente) com os autores, abordando as questões actuais, desde a covid-19 até à revolução tecnológica chinesa, passando pelas relações de Pequim com a Igreja do Papa Francisco.

livros

Michelangelo Cocco:

«Primeiro o Partido, depois o socialismo de mercado»

«Recomendo-lhe: não escreva que sou sinólogo porque isso seria uma mentira. O meu nível de mandarim é básico, o que significa que me faço entender e entendo algo, mas infelizmente (por enquanto) nada mais».

Michelangelo Cocco vive em Suzhou, província de Jiangsu. É director executivo do Centro de Estudos sobre a China Contemporânea (CSCC) e escreve para Il Messaggero, depois de ter sido correspondente de Pequim para o Manifesto.

Nas circunstâncias actuais, só podemos começar a nossa conversa a falar sobre a covid-19. «Quaisquer responsabilidades chinesas – comenta Michelangelo – neste momento são extremamente difíceis de apurar, também porque os cientistas ainda não esclareceram definitivamente onde e em que circunstâncias este novo coronavírus se desenvolveu e transmitiu ao homem. No entanto, um grupo de governos (Estados Unidos, Reino Unido, Brasil...) que negavam a gravidade da pandemia, depois usaram-na para fins políticos, para acusar a China com a qual – há alguns anos – tem havido um confronto que abrange todas as áreas: tecnológica, comercial, política e valores. Provavelmente, as autoridades de Hubei reagiram ao surto tardiamente, negando-o no início e censurando os médicos que tinham feito soar o alarme sobre a pneumonia misteriosa. Mas toda a controvérsia que foi desencadeada – num contexto agora polarizado que enfrenta tanto a China com o Ocidente – não tem qualquer valor científico. Trata-se de uma batalha política que agrava as tensões pré-existentes, que minaram o que teria sido uma cooperação internacional muito útil em matéria de saúde e que impedirá qualquer investigação independente sobre a Sars-CoV-2.»

china_guterresO secretário-geral das Nações Unidas (ONU), António Guterres (esq.), cumprimenta o Presidente chinês, Xi Jinping (Foto: ONU/Dong)

Os três pilares do novo Império Chinês

Antes da covid-19, na imaginação colectiva ocidental, a China já não era a do campo, mas sim a moderna, hipertecnológica, com grandes cidades de estilo ocidental. Ou seja, em síntese, podemos afirmar que estes são os pilares do marxismo e do confucianismo que fazem parte do chamado «socialismo de mercado». Perguntamos a Michelangelo Cocco se esta é uma interpretação correcta. «Digamos que o "socialismo de mercado" – estabelecido "definitivamente" após a repressão da Praça de Tiananmen (em 1989) e a viagem ao Sul de Deng Xiaoping em 1992 – introduziu num país oficialmente socialista, doses cada vez maiores de capitalismo. Mas a certa altura – aproximadamente durante a década de Hu Jintao-Wen Jabao – o Partido entendeu que as reformas do mercado e os défices ideológicos deveriam ser limitados, caso contrário o sistema entraria em colapso devido às tensões criadas pelas crescentes desigualdades e o afastamento entre o Partido e a sociedade. Xi Jinping assumiu a tarefa – de modo explícito desde o 19.º Congresso de 2017 – de recuperar o controlo sobre a economia e o povo. O pêndulo Estado/mercado com Xi oscilou muito mais para o lado do primeiro, embora o mercado continue a ser um elemento imprescindível da economia chinesa. Através de uma poderosa mistura ideológica de marxismo, confucionismo e nacionalismo, os dirigentes reafirmaram a sua autoridade sobre o Partido, reagrupando-o, e estão a tentar restaurar um certo quadro ideológico-patriótico para uma sociedade que, até há pouco tempo, se sentiu atraída sobretudo por oportunidades de progresso social (que, aliás, actualmente, se estão a restringir).»

126229543_sProtestos nas ruas de Hong Kong em 2019 (Foto: 123RF)

Não só Hong Kong

A crónica das recentes revoltas na antiga colónia britânica de Hong Kong também trouxe à luz os conflitos na Região Autónoma do Tibete e no Xinjiang, de maioria islâmica. «Mesmo que se trate nos três casos de periferias rebeldes dentro do novo império chinês, são três situações muito diferentes», explica Michelangelo. O Tibete e Xinjiang expressam um nacionalismo muito fraco e, na verdade, não têm representantes reconhecidos, nem na China nem no estrangeiro. Nesta situação, penso que o Partido poderá prosseguir – a um ritmo acelerado, aproveitando a vantagem actual – as suas políticas de assimilação cultural e de controlo do território destas duas imensas regiões fronteiriças, pobres e escassamente povoadas, mas que, em conjunto, representam um terço do território do país. O discurso é diferente para Hong Kong, uma pequena, rica e densamente povoada região administrativa especial. Aqui, a sociedade está fortemente polarizada: uma parte está com Pequim, a outra contra. Os que contestam a ordem estabelecida são muitas vezes muito jovens e de classe média, têm os seus próprios partidos e movimentos políticos, comunicam com o resto do mundo e conseguiram atrair a simpatia e o apoio das democracias liberais para a sua causa. Apesar da recente aprovação da Lei de Segurança Nacional, as tensões com esta parte importante da sociedade da antiga colónia britânica podem representar um "novo normal" numa Hong Kong profundamente dividida e destinada a tornar-se menos relevante do ponto de vista económico para a República Popular, "substituída" por Xangai ou pelo vizinho Shenzhen.»

30148137_sPanorama do centro financeiro de Pequim, China

Simone Pieranni:

«O novo Silicon Valley é chinês»

Permaneceu em Pequim quase 10 anos. Na capital chinesa – no ano de 2008 – foi co-fundador da China Files, uma agência editorial que reúne jornalistas, sinólogos e especialistas em comunicação especializados em assuntos asiáticos. «Quando não trabalhava como jornalista, gostava de ser treinador de crianças numa escola de futebol local», recorda com um tom de nostalgia. Voltou a Itália por razões pessoais e, actualmente, Simone Pieranni é editor-chefe do Manifesto. Interrompemo-lo enquanto está a cuidar dos seus dois filhos gémeos de 15 meses.

Tecnologia chinesa e os meios de comunicação

Red Mirror, o seu terceiro trabalho dedicado à China (que também deverá ser lançado em França e na América Latina), começa por descrever um dia em Pequim usando o seu telemóvel e o WeChat (Weixin, em mandarim), uma aplicação da multinacional chinesa Tencent. «Cheguei à China em 2006 – diz Simone – e em poucos anos dei por mim a fazer tudo com o meu telemóvel. O livro nasce da experiência do que aconteceu naquele país a nível tecnológico».

Sim, a tecnologia chinesa. É contra essa que se coloca Donald Trump (a história da rede social TikTok é emblemática); e acompanha-o o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha estão a instar os aliados a rejeitarem o avanço tecnológico da China, em particular o da gigante Huawei. Embora – pelo menos até agora – os maiores escândalos relacionados com a espionagem digital tenham acontecido nestes dois países, com a Agência de Segurança Nacional dos EUA (escândalo Datagate de 2013) e a britânica Cambridge Analytica (escândalo de 2018).

«O perigo por trás da Huawei – confirma o nosso interlocutor – é idêntico ao das grandes empresas americanas ou ocidentais. Seja qual for a empresa que gira os dados, existe sempre o risco de utilização ilegal da informação recolhida. No entanto, no que diz respeito à China – isto é verdade – são desencadeadas outras dinâmicas que tornam tudo ainda mais complicado. Não vale a pena escondermo-nos atrás de um dedo, a escolha é e será política.»

É certo que desvendar o enigma da China não é fácil e, nesse sentido, os meios de comunicação social não ajudam. Perguntamos a Simone se, de acordo com a sua perspectiva privilegiada, os meios de comunicação ocidentais falam correcta e verdadeiramente sobre a China ou, em vez disso, prevalecem máscaras ideológicas e preconceitos. 

«É difícil – explica – fazer um raciocínio geral, porque há excepções. Mas podemos dizer que os meios de comunicação social tradicionais têm uma atitude bastante superficial, se não prejudicial, sobre a China, criando no espectador e leitor a necessidade de ver tudo a preto ou branco. São os media que criam os adeptos. Não obstante, em relação à China ocorre assim há muito tempo».

China 695Celebração católica na China (Foto: Além-Mar/José Rebelo)

Pequim e a Igreja de Roma

Adeptos como os da Igreja do Papa Francisco: ou estás com ele ou contra ele. Nas últimas semanas, os EUA de Trump e o secretário Mike Pompeo têm procurado interferir fortemente nas relações entre o Vaticano e a China que estão a trabalhar para renovar o acordo (provisório) de 22 de Outubro de 2018 sobre o processo de nomeação de bispos. No jornal Corriere della Sera do passado dia 2 de Outubro, Ernesto Gallidella Loggia falou de «uma rendição patética de facto e, portanto, num enorme presente aos governantes chineses» por um «papa do terceiro mundo». «Desculpem-me a hipérbole – comenta Pieranni –, mas acho que é uma relação entre dois órgãos políticos muito semelhantes. São duas instituições que raciocinam com tempos muito mais longos que qualquer governo no mundo, procedem do mesmo modo, por vezes, na gestão dos assuntos internos e estão muito habituadas a "segredos". Creio que é realpolitik [prática política orientada para a obtenção de resultados pragmáticos]: a Igreja sabe que na China a crise de valores favorece a evangelização; a China sabe que um acordo com a Igreja a protege de certas críticas ocidentais».

 

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EDIÇÃO
Dezembro 2020 - nº 708
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