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09 novembro 2020

Estados Desunidos da América

Tempo de leitura: 11 min
A eleição mais dramática da história recente dos EUA terminou com a vitória de Joe Biden. Trump não aceita a derrota e está pronto para uma guerra legal com consequências imprevisíveis. Biden e Kamala têm um mandato difícil, uma vez que o Trumpismo continua vivo numa parte considerável do país.
Paolo Moiola
Jornalista
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Apoiantes de Joe Biden e Kamala Harris celebram a vitória eleitoral nas ruas despois de conhecidos os resultados (Foto: Lusa)

Um longo suspiro de alívio. Este terrível 2020 poupou-nos uma segunda presidência de Donald Trump. Muitos nos Estados Unidos e em todo o mundo receavam que o bilionário mentiroso e megalómano ganhasse de novo. Felizmente, não foi esse o caso, apesar de ter sido muito mais difícil do que o esperado, uma vez que as sondagens eleitorais foram desmentidas pelos resultados reais. No entanto, não foi desmentida a verdadeira natureza do presidente em exercício, que escreveu no Twitter no dia 4 de Novembro: «Estão a tentar roubar-nos as eleições». Publicado originalmente assim, em letras maiúsculas. Como os resultados eram favoráveis ao adversário Joe Biden, o presidente estava a destruir as instituições e as regras democráticas do país, o verdadeiro grande perdedor desta eleição como comentou Thomas Friedman no The New York Times. A escalada presidencial continuou sem reservas. No dia 5 de Novembro, Trump escreveu no Twitter: «STOP THE COUNT!» («Parem a contagem»!), pretendendo que os votos expressos por correio por milhões de cidadãos não fossem contados. No mesmo dia, realizou a segunda conferência de imprensa na Casa Branca: foram 16 minutos de monólogo com tal delírio de acusações (sem qualquer evidência) que as grandes estações de televisão dos EUA intervieram para cortar e/ou salientar que as suas alegações eram falsas. Mas não conseguiram impedir o presidente cessante, que escreveu no dia 7 de Novembro: «I WON THIS ELECTION, BY A LOT!» (Ganhei esta eleição, por muito!).

biden2Joe Biden e Kamala Harris falaram pela primeira vez no dia 7 de Novembro enquanto Presidente e vice-presidente eleitos dos EUA (Foto: Lusa)

Joe Biden, o moderado

Dando por certo que Trump recorrerá a todos os estratagemas possíveis para contestar os resultados (apoiado pelo seu assessor jurídico Rudy Giuliani), é agora o momento para nos concentrarmos em Joe Biden, o 46.º Presidente dos Estados Unidos, o mais votado na história do país (74,5 milhões de votos, mais 4 milhões do que Trump, dados do dia 7 de Novembro). Em primeiro lugar, é necessário frisar que, inicialmente, mesmo muitos democratas tinham considerado Biden como um candidato a ser sacrificado no altar da presidência – depois, a chegada do furacão covid derrubou a mesa política e eleitoral – e, posteriormente, um remedeio devido à ausência de alternativas viáveis. É evidente que Biden não é um personagem como Obama ou Trump. Católico praticante, é um político moderado. Com duas vantagens: tem experiência política e conhece as durezas da vida.

O seu percurso político vem de longe. Em 1972, aos 29 anos, foi eleito senador, o quinto senador mais jovem da história dos EUA. A partir daí será sempre reeleito. Em 2008, Barack Obama escolheu-o como vice-presidente, cargo que ocupará nos dois mandatos.

A segunda vantagem deve ser escrita entre aspas, porque é daquelas que nunca desejaria ter. Biden foi, de facto, atingido várias vezes nos seus afectos familiares.

Em 1972, aos 30 anos, um acidente de carro levou a sua esposa Neilla e a filha mais nova, Naomi, deixando-o sozinho com os outros dois filhos. Em 2015, o seu filho mais velho, Beau, morreu de um tumor cerebral. Experiências que deixam a sua marca, que ajudam a entender melhor a fragilidade da existência.

O outro ponto forte do novo presidente poderá ser a sua vice-presidente, a senadora da Califórnia Kamala Harris (1964). Será a primeira mulher a ser vice-presidente dos Estados Unidos. Anteriormente, apenas Geraldine Ferraro (dos democratas) e Sarah Palin (dos republicanos) tinham tentado. Ambas sem sucesso. Além de ser mulher, Kamala Harris é negra (do lado do pai, jamaicano) e asiática (do lado da mãe, indiana). Em suma, uma californiana com raízes africanas e asiáticas, testemunho vivo da América multiétnica.

biden3Nas as eleições mais votadas da história americana, Joe Biden saiu vencedor. Mas com Biden na Casa Branca (a partir do dia 20 de Janeiro de 2021, data da tomada de posse oficial), Trump não desaparecerá e, acima de tudo, existe e permanecerá o Trumpismo (Foto: Lusa)

Biden e o Trumpismo

O que vai acontecer com Joe Biden enquanto presidente? O seu primeiro discurso como presidente eleito foi ecuménico, como devia ser. As previsões indicam que se vão realizar muitas mudanças no âmbito interno nos Estados Unidos, menos internacionalmente, não obstante, em questões fundamentais (por exemplo, a emergência climática, partindo do facto que, desde o dia 4 de Novembro, os Estados Unidos se afastaram do Acordo de Paris). No entanto, estas são previsões optimistas. Por várias razões. A primeira diz respeito à divisão do Congresso: a Câmara, tudo indica, permanecerá com os democratas, mas o Senado pode permanecer com a maioria dos republicanos (as contas estão em aberto, mas na hora em que escrevemos têm 48 lugares). No entanto, o Supremo Tribunal está nas mãos dos republicanos (seis a três), e esta é, provavelmente, a instituição mais importante do país, uma vez que decide em relação a questões essenciais e os seus membros não têm mandatos com duração pré-estabelecida, sendo eleitos para toda a vida.

Em suma, com Biden na Casa Branca (a partir do dia 20 de Janeiro de 2021, data da tomada de posse oficial), Trump não desaparecerá e, acima de tudo, existe e permanecerá o Trumpismo. «A ideologia, a política e o estilo de vida do empresário Donald Trump, eleito presidente dos Estados Unidos em 2016», lê-se no dicionário Treccani, que logo a seguir especifica, ainda que indirectamente, as suas características relevantes: racismo, misoginia, fanatismo, xenofobia, vulgaridade, ameaças e violência. E ainda podemos acrescentar adepto das teorias da conspiração (como se viu nesta eleição), contrário à ciência («Fauci fired!» – «Fauci demitido» –, gritavam os seguidores do presidente norte-americano durante os seus comícios pedindo a saída do conselheiro da Casa Branca para a pandemia) e a falta de fiabilidade (ao ponto de o The Washington Post ter construído uma gigantesca base de dados das mentiras de Trump, falando de um «tsunami de falsidades»).

Da economia ao clima

É neste quadro complicado que Joe Biden, de 78 anos (que completará no dia 20 de Novembro), terá de governar. Procuremos então mencionar, ainda que em algumas linhas, o programa geral do novo presidente, a começar pela economia (sobre a qual – não esqueçamos – pesam as incógnitas relacionadas com a pandemia covid-19).

A economia de Trump, exaltada pela direita (tradicional e populista) e muitos comentadores, baseia-se num pressuposto básico: menos impostos e, sobretudo, menos impostos para os ricos. É verdade que, antes da explosão da pandemia, os dados económicos do país eram bons, mas não como Trump afirma. Em primeiro lugar, a tendência positiva já tinha começado sob a segunda presidência de Obama (2013-2016). Em segundo lugar, os números reais e, sobretudo, os custos desses resultados económicos devem ser especificados, a começar pela deterioração das relações com os parceiros comerciais. Foi com essa perspectiva que, no final de Outubro, mais de mil economistas norte-americanos (professores universitários e laureados com o Nobel) assinaram um apelo em que aconselhavam fortemente a não votar em Trump. A prioridade do novo presidente norte-americano é terminar com as políticas económicas que recompensam a riqueza sobre o trabalho e as empresas em vez das famílias trabalhadoras.

Outro tema interno que sempre foi muito sentido é o dos serviços de saúde. Além de enfrentar seriamente a grave emergência covid-19, Biden pretende defender a lei que garanta que todos os norte-americanos tenham acesso a um seguro de saúde (Patient Protection and Affordable Care Act, conhecida como Obamacare) que Trump sempre tentou afundar (e sobre a qual o Supremo Tribunal também terá de dar a sua opinião). Defendê-la e, possivelmente, melhorá-la, reduzindo ao mínimo o número de norte-americanos sem seguro e pondo limites à discricionariedade intolerável das companhias de seguros.

No âmbito internacional, a mudança mais importante – já o referimos há pouco – deverá ser o abandono do negacionismo climático, que caracterizou a administração Trump. O novo presidente está, de facto, convencido de que não existe uma ameaça mais séria e que os Estados Unidos devem apresentar-se como líderes mundiais na resolução da emergência do aquecimento global, tendo ainda em conta que o ambiente e a economia estão intimamente ligados.

O The New York Times, que se colocou na linha da frente na oposição a uma segunda presidência de Trump, começou o editorial do dia 2 de Novembro com uma frase de Martin Luther King de 1968: «Só quando está suficientemente escuro, é que consegues ver as estrelas (Only when it is dark enough, can you see the stars). Não se sabe quando é que os Estados Unidos e o mundo voltarão a ver as estrelas. Obviamente, hoje há mais luz ao fundo do túnel.

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EDIÇÃO
Dezembro 2020 - nº 708
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