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11 janeiro 2021

Últimos dias para Trump

Tempo de leitura: 8 min
A presidência de Trump termina com o ataque dos seus apoiantes ao Congresso dos EUA. Um acontecimento único e traumático para a democracia daquele país, mas não para um homem como Donald Trump. Pagará com o "impeachment"? Seja como for, Joe Biden entrará na Casa Branca a 20 de Janeiro.
Paolo Moiola
Jornalista
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Donald Trump recua e assegura transição pacífica depois do caos provocado pela invasão ao Capitólio. No Partido Democrata, crescem os pedidos para o seu afastamento da Casa Branca (Foto: Lusa).

 

O ataque ao Congresso em Washington na quarta-feira, 6 de Janeiro, é a conclusão indigna, mas consistente do mandato de Donald Trump, o pior presidente da história recente dos EUA.

Muitos comentadores dizem: «Isto não é a América». A objecção está bem fundamentada, mas é apenas meia verdade. Se não queremos ser hipócritas, a afirmação correcta deve ser: «Isto também é a América». O país onde circulam (pelo menos) 400 milhões de armas de fogo, número que cresceu exponencialmente em 2020, durante a pandemia. O país onde as forças da lei não hesitam em disparar (994 pessoas mortas no ano passado), especialmente se a cor da pele não for branca. O país onde a maior organização sindical de polícias – a Ordem Fraternal da Polícia (FOP, na sigla em inglês) – apoiou a candidatura de Trump às eleições de 3 de Novembro.  

A América é o país que garantiu ao presidente cessante mais de 74 milhões de votos (menos 7 do que o vencedor Joe Biden). Votos legítimos, livremente expressos por cidadãos que são apoiantes convictos de Trump. Mas nem todos inocentes.

Os assaltantes do Congresso pertencem aos “Patriotas Americanos”, como Trump os chama enfaticamente. Movimentos de extrema-direita diversos e não novos na história dos EUA. Na enciclopédia britânica, o Professor John Philip Jenkins descreve-os como «grupos paramilitares radicais cujos membros geralmente aceitam interpretações políticas altamente conspiratórias e se consideram defensores das liberdades tradicionais contra a opressão governamental».

Durante o mandato de Trump, estes grupos saíram a céu aberto, com uma visibilidade amplificada pelas redes sociais (Facebook em primeiro lugar, mas também Instagram, Twitter e YouTube) e pelo próprio presidente. Entre os vários movimentos mereceram a honra das crónicas de dois grupos recém-formados: aquele que reúne os seguidores de QAnon e o dos Proud Boys.

QAnon é um movimento da extrema direita norte-americana que tem difundido algumas das mais imaginativas teorias da conspiração. Defende, por exemplo, que Donald Trump está a travar uma guerra secreta contra o Estado profundo, uma estrutura liderada por uma rede mundial de pedófilos (e adoradores de Satanás) que está a tomar o poder através de Governos, negócios e grupos de meios de comunicação (Fonte: BBC). Desde 3 de Janeiro, os seguidores desta teoria insana têm até a sua própria representante na Câmara, Marjorie Taylor Greene, uma republicana da Geórgia. Esta teoria também é disseminada por um alto representante da Igreja Católica anti-Francisco, o arcebispo Carlo Maria Viganò, que foi núncio nos Estados Unidos, um “trumpiano” acérrimo (cujas ideias são assiduamente divulgadas no portal de Internet do vaticanista Marco Tosatti).

Quanto aos Proud Boys, são um grupo supremacista de extrema-direita, composto apenas por homens. Defende o direito de cada cidadão a possuir armas e o uso da violência para combater o que diz ser o ataque contra os homens brancos e a cultura ocidental. É anti-imigrantes e anti Estado-providência.

Seguidores de ambos os grupos participaram no ataque ao Congresso dos EUA.

capitolioApoiantes de Trump invadiram o Capitólio quando Biden estava a ser confirmado como presidente (Foto: Lusa)

 

Entre os invasores (quase todos sem máscaras), alguns atraíram mais a atenção do que outros. Por exemplo, Jake Angeli, (adepto do movimento conspiracionista e que se chama a si próprio “QAnon Shaman”) entrou no Capitólio em tronco nu e com uns cornos de bisonte plantados na cabeça. Foi detido no sábado passado. Ou Richard "Bigo" Barnett, líder de um grupo pró-armas em Gravette, no Arkansas, que tirou uma fotografia no escritório de Nancy Pelosi, a presidente da Câmara, com um dos pés sobre a sua secretária.

Podem não ser as personagens deste género a colocar a democracia dos EUA em crise, mas podem ser a expressão de um mal-estar mais geral ao qual o moderado Joe Biden terá de tentar dar uma resposta. Tarefa difícil, mas não impossível agora que o Congresso (Câmara dos Representantes e Senado) está completamente nas mãos do Partido Democrata. Na verdade, nas eleições de 5 de Janeiro, a Geórgia, um antigo Estado Republicano do Sul, também virou as costas a Trump, atribuindo os dois lugares senadores ainda em jogo aos candidatos democratas (incluindo um negro) e, assim, entrega o controlo do Senado ao partido de Biden.

O que vai acontecer agora é difícil de prever. Depois de ver na televisão um ataque que, entre outras coisas, deixou cinco mortos (quatro manifestantes e um polícia), o presidente parece ter-se convencido a admitir a sua derrota e prometeu uma transferência de poder tranquila. Alguns democratas gostariam de indiciá-lo ((processo de impeachment), outros gostariam de expulsá-lo imediatamente tendo como base a 25.ª emenda à Constituição. Por seu lado, Joe Biden é mais cauteloso.

Entretanto, Trump foi expulso das redes sociais que, nos quatro anos da sua presidência, tinham sido a principal ferramenta da sua propaganda, mais do que a Fox News. Após os acontecimentos de 6 de Janeiro, tanto o Facebook (temporariamente) como o Twitter (de forma permanente) bloquearam a conta do presidente. Este último reagiu de imediato dizendo que irá mudar-se para outras plataformas (como o 'Parler', uma plataforma pró-Trump, ultraconservadora sem moderadores, que foi suspensa no dia 10 de Janeiro dos servidores da Amazon após incitamento à violência por apoiantes de Trump) ou criar a sua própria plataforma.

Na quarta-feira, dia 6, à medida que a situação se agravava, Trump emitiu uma declaração em vídeo, tentando transformar-se de instigador – de manhã, na abertura da “Save America march” – para um pacificador (à noite) da mesma multidão de pessoas agitadas. É lamentável que, mesmo    durante esse discurso o presidente tenha reiterado, pela enésima vez, a justeza dos protestos daqueles que defendem que as eleições foram roubadas (acusação para a qual nunca foi apresentada nenhuma prova). Durante os protestos dos afro-americanos, o presidente tinha apelado à «lei e a ordem». Aos seus apoiantes limitou-se a dizer: «Vão para casa». E ainda acrescentou: «We love you. You’re very special» (Nós amamos-vos. Vós sois muito especiais).

Felizmente, no próximo dia 20 de Janeiro, a Casa Branca será libertada do seu inquilino indigno. E cabe ao presidente eleito Joe Biden chefiar o país. Finalmente.

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EDIÇÃO
Setembro 2021 - nº 716
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