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05 abril 2021

Vocação: uma realidade integral e integrante

Tempo de leitura: 9 min
A vocação é um dom que se discerne e realiza pouco a pouco, procurando dar a mão a quem ajude na autodescoberta, nas opções e no compromisso de amar e ser gerador de vida em favor da Humanidade.
Susana Vilas Boas
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Por estes dias, todos se mostram mais atarefados que o habitual. A pandemia, que trouxe tanto isolamento e tantas restrições à circulação, parece ter arrastado consigo uma avalancha de afazeres e uma azáfama à qual ninguém está imune. Um dos problemas reside no facto de, ao fazer-se tanta coisa “a partir de casa”, tudo ser exigido como prioritário, urgente, importante. No meio de tantas coisas (escola, trabalhos, família e, muitas vezes, doença), não conseguimos abarcar tudo nem fazer uma gestão equilibrada de prioridades. Simplesmente, parece que não conseguimos dizer que não a nada, nem conseguimos encarar os afazeres de um modo saudável, dando prioridade ao prioritário.

Esta situação fez-me pensar sobre a realidade vocacional. Talvez o discernimento vocacional esteja, também ele, assombrado por algo semelhante ao que vivem hoje nestes tempos pandémicos: parece que há dificuldade em gerir os nossos sonhos (destingindo-os das ilusões) e em dar prioridade ao que é prioritário. Além disso, mantém-se a dificuldade de dizer que não ao que quer que seja. Assombra-nos a possibilidade de estarmos a rejeitar algo e que, com isso, estejamos a comprometer o nosso futuro. Ora, a questão deveria ser inversa. De facto, sendo a vida feita de escolhas, o «não-escolher/não-optar» é já uma escolha. Escolha, esta, que também compromete irremediavelmente o futuro: o futuro torna-se sempre um “adiamento” daquilo que somos e daquilo que desejamos ser. Não seria antes o caso de priorizar e fazer opções consonantes com os nossos maiores anseios de vida, para que fosse isso a comprometer o futuro? Não queremos todos comprometer o futuro para que ele vá na direcção do que mais desejamos?

Dito desta maneira, as coisas até parecem simples. Em alguns casos até são (por exemplo, quando temos de dizer que não a um “mau caminho”), mas, na maioria das vezes, as coisas não são simples (por exemplo, quando temos de optar entre vários caminhos, todos eles “bons”). É relativamente a este último ponto que as coisas se complicam, mas isso não é justificação para ficar a marcar passo, sem avançar. Antes, existindo vários caminhos que gostaríamos de percorrer, há que procurar a ajuda certa para um discernimento autêntico que seja capaz de nos ajudar a ver a realidade do que somos de maneira mais autêntica e integral.

Um caminho a dois, a três ou a mais...

A vocação não é apenas um dom pessoal, é também um dom para o mundo em que vivemos (mesmo para aqueles que nem conhecemos!); neste sentido, a vocação «inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral. O Criador não nos abandona» (Laudato Si’, n.º 13).

Sendo uma realidade com impacto universal, a vocação é sempre sinónimo de descoberta e caminho conjunto. Aliás, se quando olhamos os caminhos que se apresentam diante de nós e só vemos o nosso próprio bem-estar, então, algo está errado: não estamos a ver os caminhos relativos àquilo que somos e que queremos ser, mas os caminhos que dizem respeito ao que temos e ao que queremos ter! Todos queremos progredir e crescer aos mais diferentes níveis – e nada há de errado nisso – antes, importa ter presente que «é possível ampliar o olhar, e a liberdade humana é capaz de limitar a técnica, orientá-la e colocá-la ao serviço doutro tipo de progresso, mais saudável, mais humano, mais social, mais integral» (Laudato Si’, n.º 112). Não somos escravos do que temos, nem podemos olhar o futuro colocando-nos numa posição de escravos relativamente ao que queremos ter! Integrando na nossa vida – no discernimento e vivência vocacional – pessoas que nos ajudam a ver o que verdadeiramente somos e, consequentemente, o caminho que mais nos realiza e faz felizes, será possível, optar/escolher sem medo de comprometer o futuro de maneira errada.

 

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(© 123RF) 

Lembro-me de, certa vez, ouvir um cirurgião falar do modo como teve de tratar a esposa quando esta teve cancro na mama. Dizia ele que quando pegou no bisturi para remover o tumor maligno, sentiu no olhar dos colegas como que a frase «vai mutilar a própria mulher!». Esses olhares fizeram-no dizer em alta voz: «Vou cortar o que não interessa. O amor exige cortes, mas são sempre em vista a salvar, nunca a mutilar.» Voltando à questão vocacional, é mais ou menos o mesmo que se passa quando nos colocamos num caminho de discernimento. Alguém nos ajudará a “tirar o que não interessa”. No final, não seremos pessoas mutiladas, mas vivas!

Comprometer o futuro

Todos sairemos a ganhar com um bom discernimento vocacional! A vida de alguém, quando feliz e realizada com autenticidade, é sempre dom e mais-valia para toda a Humanidade. Por isso mesmo, a vocação nunca mutila ninguém, antes «pressupõe o respeito pela pessoa humana enquanto tal, com direitos fundamentais e inalienáveis orientados para o seu desenvolvimento integral» (Laudato Si’, n.º 157).

Como efeito bola de neve, trilhar os caminhos da vocação leva sempre a um maior crescimento e ao alcance de um número maior de pessoas: pessoas que caminham connosco no discernimento, pessoas com quem partilhamos o dia-a-dia da nossa vocação, pessoas que ajudamos a discernir a sua vocação... pessoas que encontraram uma vida mais autêntica e feliz, graças à nossa autenticidade de vida.

Muitas vezes, em termos profissionais, deparamos com pessoas muito capazes e competentes. Quando isso acontece, quase sem darmos por isso, acabamos por comentar: «Vê-se mesmo que nasceu para isto. Não está só nesta profissão para ganhar dinheiro.» De alguma maneira, o nosso desempenho profissional é revelador, não só das nossas aptidões naturais, mas também da vocação maior que nos habita. Não é por acaso que também olhamos para certas pessoas e dizemos: «Vê-se que é uma pessoa realizada!» Ora, estas pessoas não tiveram um caminho facilitado nem receberam de bandeja uma carta divina a dizer quais as escolhas que deveriam fazer em cada momento das suas vidas. Antes, tiveram de ir caminhando e, pouco a pouco, procurando dar a mão a quem as ajudou a descobrirem-se a si mesmas e a seguir em frente. De certeza que estas pessoas também tiveram momentos de dúvida e de desejo de não abandonar certos caminhos. No entanto, quanto mais foram descobrindo e vivendo a sua vocação, mais certas das suas escolhas foram ficando. Contudo, importa ter em conta que a vocação – por ser da natureza do amor – é sempre exigente. Assim, não se pense que «estando o discernimento feito, está tudo garantido». Ao contrário, a vocação exige um sim constante ao caminho escolhido e uma fidelidade às escolhas que nos mantêm na rota da autenticidade do nosso ser. Não é, por exemplo, isto que acontece com as mães? A exigência do amor move-as e faz com que, por mais cansadas que estejam, não deixem de fazer opções de vida para o bem dos seus filhos. Esta vocação pode ser, em certa medida, ícone de todas as vocações, uma vez que todas elas implicam amar, optar e ser gerador de vida/serviço permanente em favor de outros. Comprometer o futuro não é «afunilamento da vida», é a sua ampliação para uma esfera de felicidade autêntica em que todos participam. 

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