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26 maio 2021

Uma guerra aos bocados

Tempo de leitura: 12 min
Aumenta a violência no Leste da República Democrática do Congo. Os missionários combonianos em Butembo têm a sua casa na mira de grupos de manifestantes, que contestam cada vez mais a presença das tropas da ONU e de brancos na região.
António Marujo
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(© Lusa/Hugh Kinsella Cunningham)

 

O padre Claudino Gomes realiza a sua missão em Butembo (província do Kivu Norte, no Nordeste da República Democrática do Congo, não longe da fronteira com o Uganda), há pouco mais de dois anos. Nos últimos tempos, na casa de formação (postulantado) dos candidatos a irmãos combonianos, o ambiente tem sido de apreensão, depois de manifestações, conflitos e violência por vezes com mortes. «A situação é muito fluida», afirma o padre Claudino Gomes. Por isso, os 25 ocupantes da casa (seis missionários e 19 postulantes) continuam apreensivos perante a violência crescente.

Toda a actividade comercial de Butembo, cidade de mais de dois milhões e meio de habitantes, está interdita há mais de dez dias, pelos designados «grupos de pressão». À noite não se circula. Os Combonianos sabem que, numa reunião de chefes destes movimentos de base, no último fim-de-semana, foi discutido o saque da sua casa. «Pensam que há aqui agentes da ONU escondidos. Graças a Deus, um dos participantes nessa reunião conseguiu, embora a custo, convencer os outros de que isto é só um seminário de religiosos. Mas somos um alvo...»

No dia 9 de Abril, por exemplo, ouviam-se bem perto da casa rajadas de metralhadora. Poucas ruas adiante, uma manifestação foi dispersa pelo exército e pela polícia. Na fuga, muitos jovens saquearam e pegaram fogo a um escritório da administração pública, ao lado dos Combonianos, que ainda tiveram várias janelas atingidas por pedradas. «Danos colaterais», diz o padre Claudino, «da enorme tensão social que aqui se vive e pode aumentar.»

 

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Da esq. para a dir., padre Claudino Gomes, dois candidatos a irmãos missionários combonianos no dia da defesa da dissertação de bacharelato em Ciências da Educação, Ir. Jacques Eluma, formador (© Além-Mar) 

Em Butembo, têm-se registado muitas manifestações, sobretudo de jovens e adolescentes, que por vezes degeneram em conflito e em alguma vítima mortal. Protestam contra o que as populações e, nomeadamente, as «Associações e Organizações Cívicas de Butembo-Lubero-Beni» consideram a nula eficácia dos capacetes azuis da ONU perante as mortes e chacinas que assolam a região, sobretudo mais a norte, na cidade e distrito de Beni, a hora e meia de carro.

O triângulo da morte

Nessa extensa área, denominada como «o triângulo da morte» e que vai até ao maciço do Ruwenzori, na fronteira com o Uganda, são quase diárias as chacinas e a violência, atribuídas à ADF (Allied Democratic Forces), grupo que começou por ser oposição armada ao Governo ugandês e desde 2019 é caracterizado como tendo ligações ao Daesh (o autoproclamado Estado Islâmico). Há um mês, o Departamento de Estado dos EUA referiu-se ao que designou como o Daesh da RDC e o Daesh-Cabo Delgado (Moçambique) como dois grupos terroristas.

No dia 10 de Abril, em Goma (capital da província do Kivu Norte, junto do lago Kivu, 400 quilómetros a sul de Butembo), registaram-se várias mortes em conflitos interétnicos entre os kumus/hutus, e os nandes, a etnia maioritária.

No dia 12 de Abril, Carly Kasivita, o governador da província, deslocou-se ao bairro onde se registaram os confrontos, para falar com os líderes das diferentes comunidades: salvou-se por um triz de ser morto com uma arma branca. Na terça-feira, perante a violência extrema das confrontações interétnicas em Buhene/Nyiragongo, no distrito de Goma, decretou a proibição total de todas as manifestações, mesmo pacíficas, medida estendida também a Butembo e Beni.

«Temos receio de que o fogo de Goma se esteja a atear por aqui», diz o padre Claudino. Os nandes estão a ficar mais ameaçados pelo facto de os tutsis do Ruanda (que estão agora no poder, com o presidente Paul Kagamé) dominarem a região e a cidade de Goma. Depois da fuga dos hutus para o Congo, na sequência da guerra civil e do genocídio de Abril de 1994 no Ruanda, o então rebelde e futuro Laurent Kabila também se envolveu no conflito. Para ter o apoio de Kagamé na sua luta para destronar o então presidente Mobutu, do Congo, comprometeu-se a eliminar os hutus refugiados no país: muitos milhares morreram às mãos das suas tropas (de L. Kabila).

«O Ruanda tem cada vez mais influência na região de Goma», observa Claudino Gomes. «O Congo é muito grande, mas está a balcanizar-se, como dizem alguns, e a perder território nacional.»

 

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Em baixo, capacetes azuis das Nações Unidas patrulham em Nyiragongo, na província do Kivu-Norte, RDC (© Lusa) 

O único objectivo das manifestações em toda a província do Kivu-Norte é, mesmo, que as tropas da Monusco – oriundas da Tanzânia, Malauí, África do Sul, Quénia e Nepal (o único país não africano que a integra) – se vão embora, por causa do que muitos consideram a sua «ineficácia».

«Os massacres continuam desde 2013 e as pessoas dizem que a Monusco não faz nada.» Mas o mandado dos capacetes azuis tem uma limitação: só podem actuar quando chamados pelas chefias militares locais. E estas, por vezes, são também parte do problema: a maioria das altas patentes é constituída por ruandeses e filo-ruandeses, que sustêm os ADF, ou têm interesses económicos ou de poder na região…

Além da violência física, há também a económica. Num país já desgraçado pela depredação dos recursos, que estão na mão de grandes empresários e multinacionais ou políticos locais – muitos deles corruptos e com exércitos privados que exploram, por exemplo, a extracção mineira e o trabalho escravo – a última usurpação é a dos terrenos agrícolas, tomados por ugandeses e ruandeses.

Triângulo rico, população pobre

«O de Beni é um triângulo agrícola rico em cacau e fértil. Há altas patentes militares que ficam muitos anos e tornam-se grandes exportadores de cacau, café, madeira», explica o missionário comboniano português. «Até há pouco, havia paz na época das sementeiras e massacres quando se fazia a colheita. Agora é cada vez mais indistinto.»

Cerca de 500 mil ruandeses, recorda o padre Claudino, vieram para o Leste do Congo, fugidos das carnificinas de 1994 no seu país. Ao longo dos anos, em virtude da sua presença numerosa, foram ocupando terras agrícolas, à custa dos nandes locais. «Estes estão a ser particularmente vitimados, com mortes e incêndios das casas», observa.

Depois, tudo é intrincado, num país em que o Estado é inexistente ou não funciona e em que presidentes, ministros, deputados, militares procuram sobretudo ter o seu quinhão na fatia do poder e dos recursos. Armas e dinheiro, nacionais e estrangeiros, grupos e bandos, tudo se mistura num xadrez onde o xeque-mate à população civil indefesa e explorada é permanente.

Acabar com a guerra, mãe de todas as misérias

Numa nota do passado dia 8 de Abril, os bispos católicos da RD do Congo resumiam as peças e objectivos do jogo: «Os assaltantes servem-se de pontos fracos das Forças Armadas regulares para atingir o seu objectivo político ou religioso: a ocupação das terras, a exploração ilegal dos recursos naturais, o enriquecimento sem causa, a islamização da região em desfavor da liberdade religiosa, etc.»

 

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Vendedoras na estrada que liga Butembo e Goma, no Leste da República Democrática do Congo (© Lusa) 

Estes factos, acrescentam os bispos, traduzem-se em números trágicos: mais de seis mil vítimas em Beni desde 2013, mais de dois mil em Bunia (ainda mais a norte), só no ano passado. Além de pelo menos três milhões de deslocados e cerca de 7500 pessoas raptadas. Mas há mais: muitas casas e aldeias incendiadas, escolas e centros de saúde destruídos, edifícios administrativos saqueados, roubo de animais, campos e culturas…

«A população tem o sentimento de ter sido abandonada», dizem ainda os bispos católicos na nota.

Os bispos, no entanto, não se ficam pelo diagnóstico e propõem a refundação estrutural da política e dos serviços do Estado. Dirigem várias propostas e responsabilidades a entidades concretas: Governo, chefias militares, Presidência, Parlamento, Monusco… É preciso, por exemplo, colocar militares no Leste e pagar-lhes os salários; desarmar, desmobilizar e reinserir os membros dos grupos que espalham a violência; pôr de pé um observatório para a paz e a reconstrução socioeconómica...

«A guerra é a mãe de todas as misérias», escrevem os bispos, que terminam com um apelo aos que se deixaram enredar na violência: «É pelo amor e a unidade que se pode vencer o mal e parar o espectro da violência.»

Apelo à comunidade internacional

O padre Claudino Gomes, os seus colegas missionários, os jovens postulantes e muitos congoleses continuam, ainda assim, a depositar as suas esperanças na acção da comunidade internacional. O cardeal Fridolin Ambongo, arcebispo de Kinshasa, assim como uma delegação das conferências episcopais católicas da África francófona, fizeram questão de visitar as áreas e as populações martirizadas e pronunciaram-se energicamente perante o presidente da República, Félix Antoine Tshisekedi, e a opinião pública nacional e internacional. O núncio apostólico (embaixador) do Vaticano em Kinshasa já esteve em Goma, Beni, Butembo (província do Kivu-Norte), para poder informar o Papa Francisco e este também já se referiu à situação.

«Se os governos europeus fizessem mais pressão…», suspira o padre Claudino. Porque, no Congo, os estrangeiros não podem falar muito. «Nem o próprio presidente Tshisekedi fala sobre o assunto. Estamos com medo de que nos ataquem, estamos preocupados porque esta é uma guerra aos bocados, que dizima milhares de pessoas e silenciada... Mas estamos cá e vivemos com o povo que fomos enviados a servir, em nome de Jesus.»  

 

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Junho 2021 - nº 714
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